ARQUÉTIPOS
DO FEMININO NA OBRA DE CHICO BUARQUE
- MÃE - Meu Guri - 1981
Eu consolo ele, ele me consola.
Boto ele no colo pra ele me ninar.
- MÃE - Angélica – 1977
“só queria agasalhar meu anjo e deixar seu corpo descansar [...] queria cantar por meu menino que ele já não pode mais cantar [...]
“só queria agasalhar meu anjo e deixar seu corpo descansar [...] queria cantar por meu menino que ele já não pode mais cantar [...]
------------------------------------------------
Estas são duas figuras, fortíssimas representantes de aspectos do feminino nem sempre lembrados, mas presentes e
importantes: a defesa da vida e a maternidade ferida.
Transcrevo parte do texto de Figuras do Feminino nas Canções
de Chico Buarque, de Adélia Bezerra de Menezes, livro que tem sido suporte
valioso para minhas pesquisas e estudos.
Após preciosas análises das letras das músicas Angélica
e Meu Guri, Adélia arremata:
“Duas mães, dois
filhos mortos, o “anjo” e o marginal- ambos assassinados, um pelas forças da
repressão política; outro eliminado pelas forças da repressão policialescas da
opressão socioeconômica. Uma tem consciência, sabe que perdeu o filho, e a partir
desta consciência, pode estruturar o seu luto, e emprestar um sentido para sua
vida: cantar por seu menino, que ele não pode mais cantar. E a outra, analfabeta,
nem pode ler as legendas da foto do jornal, e decodifica invertidos os signos
da morte: 'O guri no mato acho que tá rindo/acho que tá lindo, de papo pro ar.'
O que torna quase que mais patética a
mãe do guri marginal é que a alienação atinge o fundo, a desumanização vai
longe: ela perde, mas não sabe que
perdeu. Ou melhor, ainda não sabe: enquanto em Angélica a dor é flagrada in
fieri, em Meu Guri é mostrada em véspera, no estágio absolutamente
anterior ao seu deflagrar. A ironia:
o mais cruel dos tropos. Meu Guri devassa o momento – álgido – antes da dor, e enfoca a questão da
impossibilidade de consciência e da ingenuidade, fruto da alienação humana.
“Implacavelmente, Chico Buarque desvenda o desamparo feminino, e a procura de proteção que, paradoxalmente, por
vezes a maternidade mascara.”
Por Ana Nunes
Nenhum comentário:
Postar um comentário