sábado, 31 de dezembro de 2011

Feliz Ano Novo - 2012 !


F E L I Z___2 0 1 2 !

Que 2012 seja um ano de ampliação da nossa consciência...
a inspirar um trabalho de formação clínica, capaz de nos
transformar em cuidadores da humanidade e do planeta!!!

Convidamos você a continuar acompanhando nosso
trabalho, neste novo ano que se inicia, com uma novidade:
as “Reuniões Clínicas”, aprimorando
o que já desenvolvíamos nos anos anteriores:
cursos, workshops, grupos de estudo e supervisão.

Fiquem atentos às nossas Newsletters a partir de 15 de janeiro...

Desejamos a todos, um ano especial e
repleto de realizações!


Dra. Suely Laitano Nassif e equipe
www.comentada.com
São Paulo-SP | Brasil

domingo, 25 de dezembro de 2011

Feliz Natal - 2011!


FELIZ NATAL E ANO NOVO!

Desde o início da humanidade até o ponto em que nos encontramos hoje,
finalizando um ciclo que durou séculos e séculos, de experimentação de amor
e ausência de amor, muitos permanecem adormecidos, apegados ao sonho da
dualidade, enredados nas malhas da competição e do consumo desenfreado
de bens materiais.

Mas muitos mais estão despertando para a realidade de que somos seres
incrivelmente criativos e que, assim como criamos um mundo de dualidade,
baseado no medo, na manipulação e no poder de uns sobre outros, podemos
voltar a criar - através da nossa intenção pura - um mundo baseado no amor
e respeito mútuos, onde todos vivam em perfeita colaboração.

Desejamos um Natal harmonioso e um 2012 repleto de realizações!!!

Dra. Suely Laitano Nassif e equipe
www.comentada.com
São Paulo-SP | Brasil

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

ERA UMA VEZ… E AINDA É

Mensagem dos anjos para este Natal

Era uma vez, há muitos, muitos, muitos anos atrás… há tantos anos, que nem o tempo existia ainda… Nesse tempo sem tempo havia um Reino de Luz, onde tudo era Amor, Beleza e Harmonia… e nós vivíamos lá!… Nós éramos os habitantes desse Reino Encantado!

Mas éramos um pouco diferentes do que somos hoje. Nosso corpo não era deste jeito… era mais transparente, mais leve, mais luminoso. E não precisava de tanta coisa para sobreviver. Tudo o que precisávamos era suprido pela Luz da qual fazíamos parte.

Sim, porque, na verdade, não éramos seres totalmente separados uns dos outros, mas como células de um grande corpo luminoso e amoroso que nos sustentava e nos mantinha sempre felizes e saudáveis.

Mas não pense que ficávamos ali sem fazer nada! A Luz adorava criar, e nós, como parte dela, estávamos sempre criando também… criávamos estrelas, cometas, mundos das mais diferentes espécies! Era muito divertido!!! E tudo permanecia na mais perfeita ordem, porque era criado com Amor e sustentado pelo Amor.

Mas um dia resolvemos fazer uma coisa inédita; resolvemos criar um planeta onde se pudesse experimentar não só o Amor, mas a ausência dele também… porque queríamos saber como seria uma vida desse tipo. E assim fizemos!

Criamos um planeta lindo! Com mares, montanhas, cachoeiras, rios, lagos, florestas maravilhosas, flores incrivelmente belas, inúmeras espécies de animais, pássaros e peixes… tudo com muito Amor e Harmonia. E então pedimos à nossa Mãe-Luz que nos deixasse ir para lá e nos desse a liberdade de escolher permanentemente entre o Amor e a ausência dele.

A Luz, que era puro Amor, não podia deixar de atender este pedido dos seus filhos. Naturalmente, ela nos deu sua permissão, mas nos advertiu:
- “Meus Amados, sendo vocês Filhos do Amor, dificilmente conseguirão vivenciar qualquer coisa que não seja Amor, porque estarão sempre agindo, pensando e sentindo com base no Amor. Se realmente quiserem ter essa experiência, terão que esquecer provisoriamente a sua natureza verdadeira e assumir um papel totalmente estranho a ela. Inclusive precisarão de um corpo mais apropriado para essa nova condição. Vocês estão mesmo dispostos a fazer isto?”

- “Sim, estamos!” – respondemos em uníssono.

- “Façamos, então, o seguinte…” – disse a Luz – “Alguns irão e outros ficarão aqui para lhes dar apoio à distância. Assim, mesmo que vocês se esqueçam por completo que são Filhos da Luz e do Amor, seus irmãos estarão aqui para relembrá-los e ajudá-los a voltar ao Lar, caso esta seja a sua escolha.”
No Reino da Luz não existe competição, portanto foi fácil decidir quem ia e quem ficava.

A Luz criou, então, um corpo perfeito para nos abrigar e mais uma vez nos advertiu:
- “Este corpo exigirá de vocês alguns cuidados que ainda desconhecem, mas saibam que tudo o que ele precisar estará à disposição de vocês nesse planeta. Para que não se sintam totalmente isolados de nós, deixarei uma pequena centelha da nossa Luz permanentemente acesa num local recôndito desse corpo, numa das câmaras do que vocês chamarão de coração. Essa chama os conectará conosco naturalmente, sempre que sentirem saudades de algo que não saberão definir, mas que terão certeza que existe… um lugar de Amor, de Paz, de Conforto eterno… Vocês nos chamarão por muitos nomes, e nós sempre os atenderemos… mas nem sempre vocês reconhecerão a nossa ajuda.”
Tendo dito isto, a Luz nos perguntou mais uma vez se estávamos realmente dispostos a enfrentar essa nova vida e, como respondemos afirmativamente, no mesmo instante nos encontramos dentro de um corpo de carne e osso, num planeta maravilhoso, mas em condições totalmente novas!

A primeira novidade – nada agradável, aliás – foi a sensação de solidão, pois não chegamos todos juntos ao mesmo lugar do planeta e, mesmo aqueles que estavam relativamente próximos, também se sentiam isolados, pois já tínhamos nos esquecido que éramos todos parte de um só corpo e, assim, sentíamo-nos estranhos uns aos outros.

Então veio a noite e, com ela, o escuro e o frio. Em seguida, a fome, a sede, o cansaço… Sem perceber, estávamos tomando contato com a dualidade que nós mesmos tínhamos escolhido experimentar. A cada aspecto do Amor, que nos era familiar, correspondia um aspecto, até então desconhecido para nós, da ausência do Amor. Neste novo Reino, havia alegria, mas também tristeza; havia fartura, mas também carência; havia bondade, mas também maldade; saúde, mas também doença; prazer, mas também dor…

E o sentimento de puro Amor que antes nos unia, começou a dividir seu espaço com a ausência de Amor, que se expressava das mais diversas formas: desconfiança, inveja, ciúme, raiva, intolerância, gerando uma sensação que jamais havíamos experimentado antes: o medo!

No começo ainda tínhamos certa consciência da Luz amorosa que se mantinha intacta em nossos corações e intuitivamente nos conectávamos com Ela em busca de conforto e orientação para enfrentarmos todas as adversidades que se apresentavam em nosso caminho.

Através desse contato, fomos inspirados a pesquisar os recursos que estavam à nossa disposição e a inventar uma infinidade de meios materiais que nos assegurassem a sobrevivência do nosso corpo, bem como uma vida confortável, segura, prazerosa e feliz.

Mas, com o passar do tempo, fomos nos apaixonando tanto por nossas próprias invenções e nos apegando tanto a elas, que passamos a acreditar, não só que elas eram imprescindíveis, como também insuficientes para alcançarmos a felicidade que tanto almejávamos. E começamos a dedicar grande parte do nosso tempo a invenções cada vez mais sofisticadas e à busca de recursos para adquiri-las, de modo que pudéssemos satisfazer nossa vontade cada vez mais exigente de ter, ter, ter… ter tanto ou mais do que os nossos semelhantes, acreditando que isso nos faria mais importantes e poderosos do que eles.

Assim passamos a competir uns com os outros na busca de uma vida material que considerávamos ideal. E essa competição aumentou tanto, que chegamos ao ponto de enganar uns aos outros para termos mais posses do que eles; chegamos ao ponto de escravizar uns aos outros; chegamos ao ponto de matar uns aos outros! E assim, nos esquecemos da Luz Amorosa que habitava nossos próprios corações.

Nossa Mãe-Luz continuava nos observando, e toda vez que a balança da dualidade começava a pender demais para o lado da ausência de Amor, Ela preparava um dos nossos irmãos de Luz para vir até nós e, através dos seus ensinamentos e do seu próprio exemplo, reacender a chama do Amor em nossos corações e nos reconectar à nossa própria Luz.

Isto aconteceu muitas e muitas vezes no decorrer da nossa experiência neste planeta, até que um dia nos envolvemos numa guerra tão horrorosa, que Mamãe-Luz decidiu mudar de tática… Ao invés de nos enviar um dos nossos irmãos, Ela resolveu intensificar um pouco mais a Centelha de Luz que habitava o coração de cada um de nós, de modo que nossa mente percebesse a existência dessa Luz e ficasse curiosa sobre sua procedência e função.

No início, foram poucos que lhe deram atenção. Mas estes lançaram tantos questionamentos, que aos poucos foram despertando a curiosidade de outros e mais outros, até que chegou um momento em que a grande maioria dos seres humanos estava se perguntando: “Quem sou eu, realmente?… O que é isto que sinto em meu coração e que me traz a lembrança de um lugar de paz, harmonia e eterna felicidade?… Se existe um lugar como esse, o que estou fazendo aqui, então?…”

E cada questionamento nos levava mais perto da reconexão com o Reino de Luz de onde viemos, permitindo-nos perceber ligeiramente a presença amorosa dos seres de Luz, que a princípio chamávamos de Mestres, por não nos lembrarmos que eram nossos próprios irmãos que haviam se comprometido a nos ajudar a voltar ao Lar, quando assim decidíssemos.

E quanto mais nos conectávamos com esses “Mestres”, mais ia clareando a lembrança da nossa identidade verdadeira; mais íamos percebendo o Amor em todos e em tudo; mais íamos nos dando conta do nosso poder de transformar a ausência de Amor em Amor, pois fomos compreendendo que nós somos o próprio Amor se expressando das mais diversas maneiras e, na verdade, a ausência de Amor é apenas uma ilusão, uma espécie de sonho que quisemos experimentar para expandirmos a nossa noção de Amor.

Nesse processo, tomamos consciência de que formamos uma unidade e que, assim como não existe competição entre as partes de um corpo humano, também não deve existir competição entre nós. Do mesmo modo que o nosso fígado tem uma função, os rins têm outra, os pulmões têm outra, as glândulas outra e todos trabalham juntos em estreita colaboração para o perfeito funcionamento do nosso corpo físico, assim também cada um de nós tem sua função específica neste planeta, e todos precisamos colaborar uns com os outros, de modo que a Humanidade, como um todo, reflita a Paz, o Amor e a Harmonia do Reino de Luz de onde viemos.

E assim chegamos ao ponto em que nos encontramos hoje, finalizando um ciclo que durou séculos e séculos. Muitos ainda estão adormecidos, apegados ao sonho da dualidade, enredados nas malhas da competição e do consumo desenfreado de bens materiais. Mas muitos mais estão despertando, e estes estão ajudando os adormecidos a despertarem também para a realidade de que somos seres incrivelmente criativos e que, assim como criamos um mundo de dualidade, baseado no medo, na manipulação e no poder de uns sobre outros, podemos voltar a criar - através da nossa intenção pura - um mundo baseado no amor e respeito mútuos, onde todos vivam em perfeita colaboração, felizes para sempre!

Neste momento, as portas do Reino de Luz e Amor estão abertas para nós, aguardando o nosso retorno; e nossos irmãos, que lá ficaram, estão nos lembrando que esse Reino não é um lugar definido no espaço e no tempo, e sim um Estado de Ser infinito e atemporal. E nos dizem alegremente:
- “Estamos apenas esperando que despertem desse sonho, pois O QUE ERA UMA VEZ… AINDA É!”

© Vera Corrêa
Dezembro de 2011

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Lembro-me de ti...


Lembro-me de ti
Nesse instante absoluto,
A vida conduzida por um fio de música.
Intenso e delicado, ele vai-nos fechando num casulo
Onde tudo será permitido.

Se é só isso que podemos ter,
Que seja forte. Que seja único.
Tão íntimo quanto ouvirmos a mesma melodia,
Tendo o mesmo - esplêndido - pensamento.

Lya Luft

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Sexalescentes ou … Sexygenários?

Por Tita Teixeira

Se estivermos atentos, podemos notar que está a aparecer uma nova classe social: a das pessoas que andam à volta dos sessenta anos de idade. Os sexalescentes: é a geração que rejeita a palavra “sexagenário”, porque simplesmente não está nos seus planos deixar-se envelhecer.

Trata-se de uma verdadeira novidade demográfica – parecida com a que, em meados do século 20, se deu com a consciência da idade da adolescência, que deu identidade a uma massa de jovens oprimidos em corpos desenvolvidos, que até então não sabiam onde meter-se nem como vestir-se.

Este novo grupo humano que hoje ronda os sessenta teve uma vida razoavelmente satisfatória. São homens e mulheres independentes que trabalham há muitos anos e que conseguiram mudar o significado tétrico que tantos autores deram durante décadas ao conceito de trabalho. Que procuraram e encontraram há muito a atividade de que mais gostavam e que com ela ganharam a vida.

Talvez seja por isso que se sentem realizados… Alguns nem sonham em aposentar-se. E os que já o fizeram gozam plenamente cada dia sem medo do ócio ou da solidão, crescem por dentro quer num, quer na outra. Desfrutam a situação, porque depois de anos de trabalho, criação dos filhos, preocupações, fracassos e sucessos, sabem bem olhar para o mar sem pensar em mais nada, ou seguir o vôo de um pássaro da janela de um 5.º andar…

Neste universo de pessoas saudáveis, curiosas e ativas, a mulher tem um papel destacado. Traz décadas de experiência de fazer a sua vontade, quando as suas mães só podiam obedecer, e de ocupar lugares na sociedade que as suas mães nem tinham sonhado ocupar.

Por exemplo, não são pessoas que estejam paradas no tempo: a geração dos “sessenta”, homens e mulheres, lida com o computador como se o tivesse feito toda a vida. Escrevem aos filhos que estão longe (e vêem-se), e até se esquecem do velho telefone para contatar os amigos – mandam e-mails com as suas notícias, idéias e vivências.

De uma maneira geral estão satisfeitos com o seu estado civil e quando não estão, não se conformam e procuram muda-lo.

Raramente se desfazem em prantos sentimentais.

Ao contrário dos jovens, os sexalescentes conhecem e pesam todos os riscos. Ninguém se põe a chorar quando perde: apenas reflete, toma nota, e parte para outra…

Os maiores partilham a devoção pela juventude e as suas formas superlativas, quase insolentes de beleza; mas não se sentem em retirada. Competem de outra forma, cultivam o seu próprio estilo…

Os homens não invejam a aparência das jovens estrelas do esporte. Nem as mulheres sonham em ter as formas perfeitas de um modelo. Em vez disso, conhecem a importância de um olhar cúmplice, de uma frase inteligente ou de um sorriso iluminado pela experiência.

Hoje, as pessoas na década dos sessenta, como tem sido seu costume ao longo da sua vida, estão a estrear uma idade que não tem nome.

Antes seriam velhos e agora já não o são.

Hoje estão de boa saúde, física e mental, recordam a juventude, mas sem nostalgias tolas, porque a juventude ela própria também está cheia de nostalgias e de problemas.

Celebram o sol em cada manhã e sorriem para si próprios…

Talvez por alguma secreta razão que só sabem e saberão os que chegam aos 60 no século 21…

Fonte: http://www.luispellegrini.com.br/2011/11/11/sexalescentes-ou-sexygenarios/

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Divina Quimera


Sou Quimera, a Ninfa.
Nasci na Antiga Grécia, dos Deuses e Mitos.
Recebi o nome Lasgie e o dom da metamorfose.

Sou Quimera, a Mulher.
Fui enfeitiçada e aprisionada por Malléficus, o Sátiro Narigudo.

Sou Quimera, a Feiticeira.
Hécate, a Deusa Tríplice da Lua, lembrou-me quem eu era e o dom que eu possuía.

Sou Quimera, das Mil Faces.
Sob a forma de uma Cabra, escapei e subi montanhas.
Como uma Leoa lutei por mim e venci os predadores.
Como uma Fêmea-Dragão voei livre no vento e cheguei aos céus.

Sou Quimera, a Deusa.
Como uma Deusa Mãe retornei do Olimpo, viajei no tempo
e atravessei o Portal do Sol Nascente, neste leste.

Sou Quimera, a Mensageira.
Fui enviada pelas Deusas Antigas à montanha dos Desejos Realizados
Para dizer que…

Sou Quimera, sou Você.

A Ninfa, a Mulher, a Feiticeira, a das Mil Faces, a Deusa.
Sou sua Força oculta.
Seu Poder de transformar a realidade.

Somos a Cabra que ultrapassa barreiras.
Somos a Leoa que luta e vence predadores.
Somos a Dracena que conquista a liberdade de ser e conhecer.
Somos a União de Poderes e Forças.

Olhe-me e reconheça-te.
Peça que te darei.

Sou Quimera, a Divina.

BETH MIGUEZ

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Um Varal Diferente


De vez em quando, faz-se necessário pendurar algumas coisas ao sol...
Como seria bom poder fazer isso com nossas coisas interiores...
Arejar tristezas... deixar que o vento as leve...
Pôr ao sol nossos afetos para lhes dar mais energia...
Deixar as mãos de nossa alma balançando ao sabor da brisa,
para colher o pólen semeador do belo...

ANA NUNES

domingo, 30 de outubro de 2011

SEDNA, A Mulher-Esqueleto

Ela havia feito alguma coisa que seu pai não aprovara, embora ninguém mais se lembrasse do que havia sido. Seu pai, no entanto, a havia arrastado até os penhascos, atirando-a ao mar. Lá, os peixes devoraram sua carne e arrancaram seus olhos. Enquanto jazia no fundo do mar, seu esqueleto rolou muitas vezes com as correntes.

Um dia um pescador veio pescar. Bem, na verdade, em outros tempo muitos costumavam vir a essa baía pescar. Esse pescador, porém, estava afastado da sua colônia e não sabia que os pescadores da região não trabalhavam ali sob a alegação de que a enseada era mal-assombrada.

O anzol do pescador foi descendo pela água abaixo e se prendeu – logo em quê! – nos ossos das costelas da Mulher-Esqueleto. O pescador pensou: ‘Oba, agora peguei um grande de verdade! Agora peguei um mesmo!’ Na sua imaginação, ele já via quantas pessoas esse peixe enorme iria alimentar, quanto tempo sua carne duraria, quanto tempo ele se veria livre da obrigação de pescar. E enquanto ele lutava com esse enorme peso na ponta do anzol, o mar se encapelou com uma espuma agitada, e o caiaque empinava e sacudia porque aquela que estava lá embaixo lutava para se soltar. E quanto mais ela lutava, tanto mais ela se enredava na linha. Não importa o que fizesse, ela estava sendo inexoravelmente arrastada para a superfície, puxada pelos ossos das próprias costelas.

O pescador havia se voltado para recolher a rede e, por isso, não viu a cabeça calva surgir acima das ondas; não viu os pequenos corais que brilhavam nas órbitas do crânio; não viu os crustáceos nos velhos dentes de marfim. Quando ele se voltou com a rede nas mãos, o esqueleto inteiro, no estado em que estava, já havia chegado à superfície e caía suspenso da extremidade do caiaque pelos dentes incisivos.

– Agh! – gritou o homem, e seu coração afundou até os joelhos, seus olhos se esconderam apavorados no fundo da cabeça e suas orelhas arderam num vermelho forte. – Agh! – berrou ele, soltando-a da proa com o remo e começando a remar loucamente na direção da terra. Sem perceber que ela estava emaranhada na sua linha, ele ficou ainda mais assustado, pois ela parecia estar em pé, a persegui-lo o tempo todo até a praia. Não importava de que jeito ele desviasse o caiaque, ela continuava ali atrás. Sua respiração formava nuvens de vapor sobre a água, e seus braços se agitavam como se quisessem agarrá-lo para levá-lo para as profundezas.

– Aaagggggghhhh! – uivava ele, quando o caiaque encalhou na praia. De um salto ele estava fora da embarcação e saía correndo agarrado à vara de pescar. E o cadáver branco da Mulher-Esqueleto, ainda preso à linha de pescar, vinha aos solavancos bem atrás dele. Ele correu pelas pedras, e ela o acompanhou. Ele atravessou a tundra gelada, e ela não se distanciou. Ele passou por cima da carne que havia deixado a secar, rachando-a em pedaços com as passadas dos seus mukluks.

O tempo todo ela continuou atrás dele, na verdade até pegou um pedaço do peixe congelado enquanto era arrastada. E logo começou a comer, porque há muito, muito tempo não se saciava. Finalmente, o homem chegou ao seu iglu, enfiou-se direto no túnel e, de quatro, engatinhou de qualquer jeito para dentro. Ofegante e soluçante, ele ficou ali deitado no escuro, com o coração parecendo um tambor, um tambor enorme. Afinal, estava seguro, ah, tão seguro, é, seguro, graças aos deuses, Raven, é, graças a Raven, é, e também à todo-generosa Sedna, em segurança, afinal.

Imaginem quando ele acendeu sua lamparina de óleo de baleia, ali estava ela – aquilo! – jogada num monte no chão de neve, com um calcanhar sobre um ombro, um joelho preso nas costelas, um pé por cima do cotovelo. Mais tarde ele não saberia dizer o que realmente aconteceu. Talvez a luz tivesse suavizado suas feições; talvez fosse o fato de ele ser um homem solitário. Mas sua respiração ganhou um quê de delicadeza, bem devagar ele estendeu as mãos encardidas e, falando baixinho como a mãe fala com o filho, começou a soltá-la da linha de pescar.

– Oh, na, na, na – Ele primeiro soltou os dedos dos pés, depois os tornozelos. – Oh, na, na, na – Trabalhou sem parar noite adentro, até cobri-la de peles para aquecê-la, já que os ossos da Mulher-Esqueleto eram iguaizinhos aos de um ser humano.

Ele procurou sua pederneira na bainha de couro e usou um pouco do próprio cabelo para acender mais um foguinho. Ficou olhando para ela de vez em quando, enquanto passava óleo na preciosa madeira da sua vara de pescar e enrolava novamente sua linha de seda. E ela, no meio das peles, não pronunciava palavra – não tinha coragem – para que o caçador não a levasse lá para fora e a jogasse lá embaixo nas pedras, quebrando totalmente seus ossos.

O homem começou a sentir sono, enfiou-se nas peles de dormir e logo estava sonhando. Às vezes, quando os seres humanos dormem, acontece de uma lágrima escapar do olho de quem sonha. Nunca sabemos que tipo de sonho provoca isso, mas sabemos que ou é um sonho de tristeza ou de anseio. E foi isso o que aconteceu com o homem.

A Mulher-Esqueleto viu o brilho da lágrima à luz do fogo e, de repente, ela sentiu uma sede daquelas. Ela se aproximou do homem que dormia, rangendo e retinindo, e pôs a boca junto à lágrima. Aquela única lágrima foi como um rio, que ela bebeu, bebeu e bebeu até saciar sua sede de tantos anos.

Enquanto estava deitada ao seu lado, ela estendeu a mão para dentro do homem que dormia e retirou seu coração, aquele tambor forte. Sentou-se e começou a batucar dos dois lados do coração: Bom, Bomm! ... Bom, Bomm!

Enquanto marcava o ritmo, ela começou a cantar em voz alta.
– Carne, carne, carne! Carne, carne, carne! – E quanto mais cantava, mais seu corpo se revestia de carne. Ela cantou para ter cabelo, olhos saudáveis e mãos boas e gordas. Ela cantou para ter a divisão entre as pernas e seios compridos o suficiente para se enrolarem e dar calor, e todas as coisas de que as mulheres precisam.

Quando estava pronta, ela também cantou para despir o homem que dormia e se enfiou na cama com ele, a pele de um tocando a do outro. Ela devolveu o grande tambor, o coração, ao corpo dele, e foi assim que acordaram, abraçados um ao outro, enredados da noite juntos, agora de outro jeito, de um jeito bom e duradouro.

As pessoas que não conseguem se lembrar de como aconteceu sua primeira desgraça dizem que ela e o pescador foram embora e sempre foram bem alimentados pelas criaturas que ela conheceu na sua vida debaixo d'água. As pessoas garantem que é verdade e que é só isso o que sabem.”

Por Suely Laitano Nassif

Postado em 20/08/2010 às 15h11

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Fazendo um passeio em uma livraria...

Hoje estive num setor de livros raros da Saraiva. Fui atendida pela responsável que se chama Ana Lúcia Brudeika. Deve ser quase da minha idade e é uma leitora voraz, graças ao fato de ter freqüentado a Biblioteca Monteiro Lobato na sua infância, com sua irmã. As leitoras se encontram das formas mais inesperadas. Lá, entre muitos tesouros, descobri uma série de livros chamada "Coleção Rosa", do início dos anos 60 e publicada pelos anos sessenta todo, com traduções de romances melados alemães (sabiam que alemão já escreveu romances melados? Eu nunca imaginaria e olha que convivi com eles por volta de três meses diariamente).

A coleção é mesmo cor de rosa e ela se manteve com 68 títulos por pelo menos uma década! Tem um best-seller nela chamada "A mulher do rádio" de Isa Silveira Leal. Leal foi leitura da minha infância. Ela escreveu uma série de livros para meninas. Meu pai me deu “Glorinha e o mar”, aos doze anos, e eu adorei. Aí me comprou “Glorinha bandeirante” que achei o máximo, porque a protagonista viaja para Salvador e tem um namoro com um guia de turismo de Salvador. Entusiasmado com minhas leituras, meu pai comprou “Glorinha e a quermesse”. Super furo. A tal Glorinha, nesse livro está com uns dezoito anos e resolve namorar a sério, pensando em se casar. O livro era tão anos 50, um horror! Toda a magia e aventura dos livros anteriores não deixam rastro nesse. Larguei Isa Silveira Leal para todo o sempre depois de tamanha decepção.

Eu que vivo farejando novidade, ando voltada para as novidades do passado. Nesse acervo antigo descobri ainda, para minha surpresa e dos sobrinhos de meu avô materno, que ele publicou 17 livros didáticos, sendo 16 de ensino da língua francesa. Os livros do Professor Cleófano Lopes de Oliveira. Mantiveram-se no mercado editorial da Saraiva por volta de vinte anos, junto aos de Português técnico, de Silveira Bueno e outros de Napoleão Mendes de Almeida. Nessa eletrizante descoberta, desse avô mágico que tive, publiquei “O avô mágico”, em 1993, e ele esteve entre as crianças até 2005, graças à divulgação da Editora Scipione, do vídeo sobre o livro realizado por uma professora de pré-escola da prefeitura de São Paulo e ao livro didático de Zélia Almeida, chamado “Alfa, beta etc. Língua Portuguesa” - 1º. Ciclo, volume 2, publicado pela Dimensão, editora mineira.

Meu avô mágico que nasceu em Batatais, estudou com José Olympio, foi amigo de Sud Minucci e jogou xadrez por anos com Silveira Bueno, foi um feminista porque formou professoras da Escola Normal Caetano de Campos por décadas, nos áureos tempos (anos 30 a 60 do século passado). Vovô deu aulas no Liceu Pasteur anos a fio. Quando nasci ele já tinha se aposentado. Falava muito de literatura, cantava hinos franceses, tinha um humor afiadíssimo e exigente quanto ao português falados pelos netos. Ele faleceu em 1987, momento doloroso em que descobri que eu me envolvera com livros e crianças inspirada nele. Em 1993 restabelecemos contato por meio do livro infantil, que me trouxe muitas alegrias e convivência com crianças. E agora ele retorna com essa novidade do universo da cultura francesa. Pus-me a pensar que se algum filho dele, genro ou sobrinhos não tivessem se tornado leitores, ele teria enterrado no jardim.

Na família, o que restou dela, ficou o mistério. Adolescente, vovô foi viver em Liége, na Bélgica, para estudar Medicina. Isso no início do século XX. De Batatais para Liége. Ele viveu por volta de dois anos na Bélgica e voltou porque o pai falecera e ele era o filho mais velho de oito. Da Bélgica ele manteve gostos gastronômicos e algumas crônicas de suas paqueras e aprontações de rapaz. De volta a Batatais casou-se e veio morar em São Paulo. Dali um tempo surgiu o Colégio Caetano de Campos e lá foi ele ministrar aulas de português, redação e francês. Da Medicina só sobrou a hipocondria, que ele manteve no estilo de Moliére em “O doente imaginário”. Dezesseis livros de francês (textos franceses, francês glorioso, o melhor do francês, gramática francesa, uma doideira). E toda essa produção publicada entre 1941 e 1960!!!!! Tem um livro de 2º ginasial de textos franceses em que há comentários de professores sobre a excelência do livro de profissionais de Batatais, Casa Branca, Taubaté e até um comentário do O Estado de São Paulo.

Sabem quantas viagens ele fez à França durante sua vida? Ne-nhu-ma.

Para minha mãe, a convivência com a língua e cultura francesa parece que fazia parte dos gens. Lembro que peguei cinco traduções de francês de textos juvenis para fazer com ela (eu não sei praticamente nada de francês). Ela traduzia e eu punha no computador. Nossas discussões eram porque ela se aferrava à etimologia das palavras e eu à estética literária. O chato é que a editora, no final, quebrou o contrato com a Nathan francesa e as traduções ficaram na gaveta. O Lino de Albergaria apreciou muito o trabalho final. Ele era o editor da Dimensão. Não me esqueço do quanto fiquei boquiaberta com o conhecimento dela. Assim como vovô, meus pais sempre foram uma caixinha de surpresas, quando o tema era Ciências Humanas.

No final dessa tarde, na Saraiva, a Sra. Brudeika me levou a um passeio entre as estantes dos livros antigos da editora. Ai entrei no meio das estantes cheias de livros antigos, e os livros do vovô acenavam para mim como se tivessem mãos. “Edições com lombadas e cores de capa diferentes” de várias edições de “Flor do Lácio”, seu livro de redação para ginásio e colégio. Como eu disse em certo momento no texto de o “Avô mágico” a respeito de Napoleão Bonaparte: “um imperador da França ou de Batatais? Bem, tanto faz”, descobri em uma tarde de segunda-feira que meu avô impera no passado da Editora Saraiva. É mesmo curioso como meu avô se tornou personagem literário e agora retorna com toda força me contando de seu passado de escritor, que eu desconheceria se não fosse uma profissional muito curiosa. Gozado mesmo é como os homens de antigamente separavam completamente a vida familiar da profissional. E se eu fiquei boquiaberta, gostei mesmo foi de ver os sobrinhos dele, Caio e Nísia com mesma expressão no rosto que eu fiquei na frente da Sra. Brudeika.

Ana Lúcia Brandão

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

O Mundo


Ainda menina mimada, pernas finas e um leve e ingênuo corpo de pura credulidade, vi o Mundo sentado num canto, como que me esperando, receptivo, e cedi à tentação: sentei no colo do Mundo. Embora agitada, e mal podendo me conter ali, tanta coisa a se viver, o colo que o Mundo me oferecia era tão confortável e caloroso, e sua aceitação de mim tão grande, que rapidamente me habituei a recorrer a seu aconchego sempre que cansada da agitação da Vida.

Vez ou outra me esquecia de tudo o que não fosse Mundo. Recostava a cabeça em seu peito, sentia suas mãos firmes me segurando e chegava mesmo a cochilar, em total abandono.

Com o passar dos anos, a certeza de que o Mundo estaria ali, me esperando, sempre que o procurasse, se consolidou e passei a ter nele meu porto seguro.

Certa vez, mais encorpada, pés já tocando o chão, senti que talvez pesasse e causasse algum cansaço no mundo. Percebi uma tentativa dele em me acomodar melhor, como fora tão natural até então. Disfarçadamente, voltei-lhe a minha atenção.

E pela primeira vez, aflita, percebi que o mundo respirava. Simulei cansaço e encostei a cabeça, como tantas vezes já fizera, em seu peito. E pude ouvir o bater acelerado do seu coração. Lembro-me de ter me sentido arrepiar. Por instantes, me falhou o ar. E fiquei quieta, sentindo o pulsar de um mundo que até então parecia estar ali apenas pra me acomodar. Olhos fechados, deixei-me arrebatar, horrorizada, pela incrível constatação de que o Mundo vivia, e talvez sofresse com minha lépida alienação. Senti raiva da Vida, sempre me ocupando e me envolvendo em suas tramas. Com certeza era dela a culpa de tamanha desatenção.

Então não tive mais sossego.
E se a qualquer momento o Mundo não mais quisesse me acolher? Sofri antecipando uma falta até doída da firmeza de suas mãos. Temi não mais poder sentir aquele respirar e o pulsar cadenciado do seu coração.


E resolvi, intimamente, que seduziria o Mundo.
Mas... tão pouco caso fizera dele, que o pobre se ressentira e agora meus esforços pra que se mostrasse eram vãos. O Mundo se fechara numa timidez crônica e percebi que teria que partir de mim o esforço pra uma aproximação. Não mais me joguei em seu colo com estabano de menina. Sentava-me de lado e, sempre que possível, buscava seu olhar. Em vez de apenas esperar que suas mãos me amparassem, passei a tocá-las carinhosamente. Vez ou outra, as mãos do Mundo respondiam ao meu toque com um leve tremor. Certo dia encostei meu rosto ao dele, senti seu calor e vi, claramente, o mundo corar. Noutra ocasião corri os dedos por seu peito e ele suspirou.

O Mundo, em seus movimentos silenciosos, em sua relutância em se mostrar, se tornou um desafio... Que imensa vontade me dava de quebrar nossas barreiras, atingir o coração do Mundo e com ele namorar! Tive que ser paciente e ardilosa. Me mostrar para o encorajar. Aceitar sem julgar. E nunca, nunca, a seus pequenos arroubos de auto-exibição, me assustar.

Aos poucos, fui ganhando sua confiança.
Hoje, já consigo tocar o Mundo com mais intimidade. E embora ele ainda se retraia ao toque dos meus lábios, desconfio seriamente que o Mundo me deseje.


Amo tanto o Mundo e seus mistérios que chego a sofrer de tanto amar...
Nalgum dia ainda me embrenho por um desses labirintos da vida e encurralo o mundo num beco sem saída. Quero despi-lo e fazer com se mostre, sem pudor ou qualquer mágoa dos meus tempos de menina. Se bobear, ali mesmo, a céu aberto, me declaro apaixonada.

Quero ver então se me vendo desarmada e atrevida, e me reconhecendo mulher feita, o mundo terá, afinal, coragem de me penetrar.

Ana Lúcia Sorrentino
Escrito em 7 de maio de 2011

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

A menina que voa...


Essa menina que voa...
por que espécie de libertação foi acometida,
pra ter coragem de voar e ainda levar no rosto
tanta leveza e entrega?
Ela voa, e voa tão confiante,
que tem os olhos fechados,
as faces coradas, cabelos vermelhos...
vermelhos esvoaçantes...
Menina que voa,
o que deixou lá embaixo, no chão de sua vida?
Que nós desatou, pra se ver livre de vez
do que a amarrava ao pé de pesada cama?
Que medos superou,
que monstros enfrentou,
de que crenças se livrou?
As crenças,
as crenças, menina...
Aquelas que você imaginava possuir,
mas que te possuíam.
Como foi, menina,
que se libertou?
E cadê, menina, nessa sua face corada,
aquela ponta de expressão de culpa
que sempre te acompanhou?
Menina que voa...
não sei de onde pulou...
nem sei onde vai aterrissar.
Não sei se flanará longamente,
ou se seu voo será apenas um breve voar.
Não sei se pousará docemente,
ou se se estatelará.
Mas...
sei, sim, doce menina,
que esse vento no rosto,
e esse frescor na alma
jamais vão te abandonar...

Ana Lúcia Sorrentino
escrito em 29/08/2011


domingo, 4 de setembro de 2011

A Lucidez Perigosa


Estou sentindo uma clareza tão grande
que me anula como pessoa atual e comum:
é uma lucidez vazia, como explicar?
Assim como um cálculo matemático perfeito
do qual, no entanto, não se precise.
Estou por assim dizer
vendo claramente o vazio.
E nem entendo aquilo que entendo:
pois estou infinitamente maior que eu mesma,
e não me alcanço.
Além do que:
que faço dessa lucidez?
Sei também que esta minha lucidez
pode-se tornar o inferno humano
- já me aconteceu antes.
Pois sei que
- em termos de nossa diária
e permanente acomodação
resignada à irrealidade -
essa clareza de realidade
é um risco.
Apagai, pois, minha flama, Deus,
porque ela não me serve para viver os dias.
Ajudai-me a de novo consistir
dos modos possíveis.
Eu consisto,
eu consisto,
amém.

Clarice Lispector

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Uma tarde com Fanny Abramovitch – parte 2

Nos tempos de Mackenzie, Fanny descobriu na biblioteca, que tinha uma escada do tipo daquelas usadas nos filmes de Hitchcock para ler em papel bíblia, fininho, mágico o tal “Tesouro da Juventude” em dezoito volumes. Foi lá que se apaixonou pela história das doze princesas, aquela em que elas saem à noite para dançar e voltam para o castelo quase de manhã, de sapatos nas mãos para não acordar o rei (Andersen). E ela termina com a questão: Quer coisa mais mágica? No Colégio Batista ela ouvia histórias mágicas da Bíblia, em flanelógrafo, contadas pelo pastor Enéas. Ele levava o flanelógrafo para o jardim, fincava o pé na grama. A gente sentava ao redor e ouvíamos sobre A arca de Noé, Davi e Golias, todas as histórias que estão no nosso inconsciente coletivo. Uma maravilha!

Aí ela deixa claro que não viveu só de histórias. Não. Ela namorou, nadou, fez ballet, aprendeu piano, enfim tudo que uma criança e adolescente do seu tempo fazia. Só que sempre esteve à frente dos outros. Foi a primeira entre as colegas a fazer intercâmbio para Paris, por exemplo. Sobre a leitura no cotidiano, ela conta: “havia o passeio até a cidade aos sábados. Era dia de cortar o cabelo, passar pela Editora Vitória, na Praça da República à esquerda, xeretar o antiquário. Então caminhar até a Livraria Francesa e ir até a Brasiliense. E depois na Teixeira.

Na Rua São Bento era hora de comprar sapatos, pés de crianças e jovens crescem sempre. E o maior dos aturdimentos: a Biblioteca Circulante (hoje, Mário de Andrade). Nela podia-se tirar até três títulos e Fanny disse que foi de A de Andrade a Z de Zola. E ainda ia lá para estudar”. E conta um particular: mantém um par de óculos de leitura em cada cômodo da casa, um hábito que aprendeu com Tatiana Belinky.

Viajar então? Sempre com quatro livros. E chega ao aeroporto e compra mais um. “E se o avião atrasar, vou fazer o quê?”. E como foi leitora voraz, a família até a deixou aprender inglês na
União Cultural, considerada “linguá do mau” pelos comunistas. Uma família de cabeça aberta. Apesar desse detalhe, a biblioteca de lá deu um breque nessa leitora sem fim. Lá conheceu Mark Twain, Dorothy Parker, Hemingway, etc. E agradece até hoje o aval dado por Álvaro Moya para que a deixassem ler os gibis em sua casa. Antes, eles eram leitura proibida. E depois da leitura, no clubinho L. Peretz eles trocavam gibis: Laura Lane, Mandrake, Príncipe Valente, o Marciano Squalidus. E conta que na casa dela conversava-se sobre livros na mesa. A avó até aprendeu a ler português. Sozinha, por meio dos livros. Aí Fanny contou que aprendeu a ler espanhol lendo. (Achei na sua estante alguns volumes das obras completas de Jorge Luis Borges).

Durante a entrevista ela disse que também dá muitos livros, os põe para circular. Mas aí, de repente, dá nova febre de ler Hemingway, vai até a estante e, deu todos. Aí começa a comprar e pegar emprestado de novo. Como o “Quarteto de Alexandria” de Durrell, gosto de reler. Conta que entre os gêneros literários não aprecia muito Ficção Científica e Históricos. Clarice Lispector? Releio sempre pela sensibilidade, pela qualidade da escrita dela. Hilda Hilst porque me cutuca, mexe comigo. Aprecia a Lia
Luft do começo da obra. Marina Colasanti a encanta, seus contos para adultos ou crianças. Lindos! Atwood como narradora, tenho a maior sedução por ela. E quem a tem encantado agora é Lívia Garcia-Roza, que mescla humor com uma loucura de psicanalista muito interessante. Uma voz mais desgarrada que me provoca. Comento com ela sobre o humor na literatura e ela se lembra de Menckel, Luis Fernando Veríssimo e suas novelas engraçadas, Woody Allen e Marcos Rey.

Diz que Marcos Rey é um grande autor e que ainda está muito na sombra. Comento o humor refinado de suas personagens e ela concorda. E Sylvia Orthof tão esquecida e que é genial, ambas concordamos. Agora, autores novos trabalhando o humor, não se lembrou de nenhum. E para terminar, comento sobre suas personagens tão sedentas de vida, independentes, libertas, cheias de desejos e dúvidas. Cito Marília de “As voltas do meu coração” que, em tempos de ditadura, sai do amor garantido em busca de um
novo desejo, de Helô que vive pelas ruas de Paris em puro deleite da vida. Fanny fala de Laura de “Que raio de professora sou eu?”, que já virou peça de teatro por duas ou três vezes. Ela completa dizendo que suas personagens são mesmo sua parte procurante, indignadas, buscantes, inconformadas, curiosas, Emílias do avesso. E me aconselha a escrever que: meu encontro com Lobato foi fundamental. Foi conquista sua, livro a livro, deleite puro. Cutucante sempre. Para arrematar Fanny então afirma que o maior valor de vida para ela, sem dúvida alguma, é a liberdade de ser, a liberdade de se expressar

Por Ana Lúcia Brandão

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Uma tarde com Fanny Abramovich – parte 1

“Ler é pão. Ler é pele.” Fanny Abramovich
Cheguei à casa de Fanny Abramovich para entrevistá-la.
Ela me deixou uns minutos na sala. A sala? Transpira teatro. Uma parede de livros, um bumba meu boi voando perto da janela, um cabide antigo de deixar chapéus e guarda-chuvas com um espelho no meio. Rio comigo mesma. Meu avô tinha um. Eu gostava de passar por ele para ver a minha altura. No começo nem o meu cabelo aparecia no espelho, depois fui vendo a testa, aí os olhos e o nariz aparecendo, até que um dia o rosto todo apareceu. E anos mais tarde, eu tinha de me abaixar para olhar meu rosto.

Não tem jeito! Fanny entende de criança, criança de todas as idades. Não é à toa que é uma grande pedagoga, sempre questionando o que há de arcaico nas escolas: a falta de criatividade, de humor e amor. Coordenou a Coleção Buscas em educação por duas décadas. Sem dúvida a melhor coleção no gênero.

Fui olhar as estantes: diga-me o que lês e te direi quem és. Achei Margareth Atwood, Marina Colasanti, Millôr Fernandes, Woody Allen, Fernando Sabino, Paul Auster, Phillip Roth, Patrícia Highsmith, Rosemunde Pilcher, Edna O´Brian, Drummond, Sylvia Plath, Marcos Rey, Sylvia Orthof e um batalhão de livros de Livia Garcia Roza, entre tantos outros. Eu a peguei na fase “Roza” justo nessa ocasião. Assim é Fanny, sempre em sintonia com o mundo.

Lá vem ela, agitada, pimentinha que só. Sentamos a uma mesa. Perguntei da sua relação com as histórias. Ela disse que veio do berço!?! Sua mãe contava histórias no berço – cantigas, contos de fadas e declamava poesias. Aí ela foi contando da mãe, Elisa Kauffman. Que mulher! Comunista, ativista, professora, diretora do Ofidas (Organização Feminina Israelita de Assistência Social), hoje conhecida como Unibes. Filha de imigrantes vindos da Bessarábia. De Pernambuco veio viver no Bom Retiro.
Casa-se com Francisco Abramovitch, argentino e tem duas filhas: Irene e Fanny. Uma mulher forte, batalha pela justiça social. (E olha que uma mulher ser comunista de carteirinha naquela época, não era brincadeira e ainda por cima grande admiradora do Luis Carlos Prestes. O pai dela foi corajoso, eu acho).

Em 1947 foi eleita a primeira vereadora do Partido Comunista em São Paulo! Pasmei – ploft (quase desmaiei). A mãe dela foi diretora do Sholem, a primeira Escola Israelita Brasileira, aberta inclusive às crianças brasileiras e cujo método pedagógico desembocou no Colégio de Aplicação da USP e no Centro Experimental da Lapa. E arremata: “a pedagoga lá em casa foi minha mãe, eu fui pouco perto dela.” Discordo com meus botões. Cada uma a seu tempo, ora.

Elisa foi amiga muito próxima de Tatiana Belinky. Em um belo depoimento ela afirma: Elisa “tinha paixão por literatura. E eu também.” A mãe morre relativamente cedo, seu enorme exemplo de luta e força virou um legado para as filhas. E Fanny continuou ouvindo histórias só que as contadas pela avó da Bessarábia, que misturava Ídiche com Português. Histórias tão malucas, no dizer de Fanny, incríveis contos russos, que ela só entendeu melhor sobre as histórias quando conheceu os quadros de Marc Chagall. E eu logo imaginei que quando ela deu de cara com os livros da Sylvia Orthof, ilustrados por Tato Gost, deve ter achado que eles eram o retorno das histórias de sua avó mescladas com as da mãe. Que doideira, como diria Orthof.

Porque Orthof tem histórias de príncipe que vai trabalhar na feira para conhecer a realidade da vida (ver “Uxa, ora fada, ora bruxa”), pastora que não quer saber de viver na realeza (ver “Ervilina e o princês”) que devem lembrá-la de Prestes, o cavaleiro da esperança. E a mesa de botequim que passa da vida em boteco para casa de madame (a mesa está de ver-da-de na sala da Fanny, certo?!) - ver o livro “A mesa de botequim e seu amigo Joaquim”. (Obs: esses livros, caras leitoras, só no site da Estante Virtual, viu?) E claro, como toda imigrante, a avó contava de sua viagem feita em 1919 da América até Pernambuco. (Essas histórias são fabulosas. Fortes, na forma de testemunho de vida, de gente que se atirava pelo mundo para lugares completamente desconhecidos, com uma gana incrível para recomeçar a vida).

Por Ana Lúcia Brandão

continua...

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Não Vê, Não Ouve, Não Fala...

"Não vê, não houve, não fala, escondido
- na zona de conforto instalado -
tudo se perde pelos seus ouvidos
qual o macaco, em três transformado.

Seus olhos de luz já são desprovidos
não vê aquilo que passa ao seu lado.
Da boca não sai um simples gemido
seus lábios estão: cosidos, selados.

Segue a estrada, sem opinião
nem bem e nem mal o fogem agir
n'alma sufoca a sua emoção

Aprendeu cedo a sempre fingir
beijos e risos em qualquer salão
pra sobreviver, sem nunca existir"

(Jorge Linhaça)

Link para a postagem original:
http://recantodasletras.uol.com.br/sonetos/1049210

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Reflexões de uma Avó

Dois e-mails que recebi ontem me impressionaram tanto pelo contraste entre o modo de encarar o mesmo assunto, que me levaram a uma reflexão profunda sobre essa questão… o envelhecimento. Embora tanto já tenha sido pesquisado, escrito e falado sobre esse tema, não se pode dizer que seja algo fácil de ser vivenciado. Principalmente porque, deste lado do mundo, a juventude e a beleza exterior são colocadas como uns dos valores mais importantes da vida – só se equiparando ao sucesso financeiro – enquanto a velhice é identificada com doença, incapacidade e dependência.

Um dos e-mails que mencionei ilustra claramente o medo da velhice e até um certo desprezo por aqueles que não conseguiram manter a aparência que possuíam nos seus anos de juventude. O próprio título – “O Tempo Passa Para Todos” – reflete a tristeza e a desesperança daqueles que consideram a beleza juvenil como valor máximo e não imaginam como vão viver quando as primeiras rugas aparecerem.

Para a mulher, em especial, essa questão pode se transformar num monstro que está sempre à espreita e deve ser mantido à distância a todo custo. Do contrário, ela poderá, a qualquer momento, ser relegada a segundo plano, tanto na sua atividade profissional, quanto no seu relacionamento amoroso e na sua vida em geral. A menopausa torna-se uma espécie de linha divisória entre a juventude e a velhice e entre todas as qualidades e defeitos atribuídos a essas duas fases aparentemente opostas.

No entanto, a vida não precisa terminar na menopausa. Pelo contrário! A partir desse ponto da nossa vida, toda a energia e tempo que eram utilizados para a geração e criação de filhos podem começar a ser aplicados no desenvolvimento de outros potenciais que ainda não tinham tido oportunidade de se expressarem. De repente, por exemplo, podemos ter vontade de tocar um instrumento, de dançar, de cantar, de escrever… e percebemos que esses talentos estavam escondidos dentro de nós e que podem ser ativados a qualquer momento através da nossa simples AUTORIZAÇÃO.

Enquanto acreditamos que já passamos da idade de fazer isto ou aquilo; enquanto nos subjugamos aos ideais de beleza e talentos divulgados e incentivados pela mídia; enquanto acreditamos que não temos condições de fazer mais nada na vida, a não ser nos resignarmos e nos prepararmos para a morte; enquanto mantemos esse tipo de crença, não nos autorizamos a realizar os desejos mais profundos da nossa alma e desperdiçamos um tempo precioso, que poderia e deveria ser usado na expressão da nossa criatividade, para nossa própria satisfação e para benefício das pessoas que nos cercam… e talvez até do mundo.

O segundo e-mail que recebi foi o convite para a palestra de uma das integrantes do “Conselho das Treze Avós Nativas” – e este encheu meu coração de alegria e esperança! Pois vi um grupo de mulheres, de diferentes tradições e regiões do planeta, que não deu a mínima importância aos conceitos e preconceitos relativos à mulher idosa, e saiu pelo mundo mostrando sua sabedoria, compartilhando seus conhecimentos nas mais diversas áreas e plantando sementes de paz e amor.

Isto só reforçou a minha certeza de que a idade não é uma limitação. O que nos limita são as nossas crenças, são os padrões aos quais temos nos submetido há séculos e que insistem em nos convencer de que nos tornamos incapazes com o passar do tempo.

Nossos pensamentos criam a nossa realidade. Se pensarmos na velhice como uma fase de doença, tristeza e impotência, é isso que teremos para nós. Se, ao contrário, pensarmos na velhice como uma fase de libertação e expressão dos nossos talentos, assim será para nós.

É uma simples questão de escolha…

© Vera Corrêa

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Mulheres em Trânsito


Trânsito.

Se há algo, hoje, de que tenho alguma certeza, é do fato de que transito em tempo integral. Buscando na memória algum período longo em que tenha estado em zona de conforto, surpreendo-me ao perceber o quanto isso é raro em nossas existências.

Estamos vivas. E se na infância, as mudanças pelas quais passamos são dramáticas, ao longo de toda a vida elas serão apenas um pouco menos visíveis a olho nú, mas se farão presentes, indubitavelmente. Difícil passar um dia sem que tenhamos visto ou sentido algo novo, sem que tenhamos aprendido, sem que tenhamos, de alguma forma, mudado. Às vezes me pego considerando a vida extremamente curta para comportar tantas mudanças.

Pulamos do colo da mãe para o faz-de-conta com bonecas e então já nos vemos menstruando e nos adaptando a absorventes, sutiãs e desejos. O corpo mal desenhado de menina ganha contornos atraentes, percebemos que há meninos interessantes, e mal nos demos conta disso já estamos experimentando. Frequentamos a escola porque todo mundo faz isso e em meio a um turbilhão de mudanças e hormônios e novidades fazemos escolhas cruciais quanto à nossa vida profissional. Ser bancadas pelos pais, de repente, passa a ser vergonhoso e antes que possamos ter as qualificações necessárias para conseguirmos autonomia financeira, já estamos nos culpando por não estarmos um estágio além. Experimentamos a paixão, espantadas com a violência com que ela nos possui, e, mal piscamos, já nos envolvemos em algum relacionamento sério. De repente, mais mudanças, tão dramáticas quanto as infantis, tomam conta de nós. Engravidamos, e em nove meses o corpo, que mal teve tempo de se acostumar consigo mesmo, sofre uma metamorfose assustadora e, antes que pisquemos, o faz-de-conta vira vida real e nos vemos acolhendo um serzinho novo em folha, cheio de possibilidades, em nosso seio. Mal damos conta de nós e, subitamente, temos que dar conta de uma nova vida. Os filhos exigem uma maturidade que não temos, porque a vida não tem ensaio, e, por mais que tenhamos brincado de bonecas quando crianças, filhos não são bonecas.

O conceito de experiência, tal como o concebemos, de já ter vivido algo e ter aprendido e por isso saber como lidar com situações parecidas, às vezes me parece extremamente frágil. Porque a experiência que adquirimos em certa fase da vida, muitas vezes já não nos serve em outra. No fundo, jamais somos maduras de verdade.

De repente, nos vem a triste constatação de que a paixão tem data de validade. Olhamos para o nosso parceiro e nos perguntamos o que é que aconteceu.

Num estalo, percebemos que não falta muito para que a tão perturbadora fertilidade se vá e comece a provocar em nós sintomas que tememos. A urgência de viver se faz presente e, num momento em que “deveríamos” sossegar, borbulhamos mais do que nunca. Ganhamos coragem, vivemos mais intensamente do que em toda a nossa vida. E a isso se seguirão mudanças às vezes mais radicais ainda, apontando a velhice lá na frente. E assim vamos, sem pausa pra sossegar.

Enfrentamos a morte de aspectos de nossa vida o tempo todo, e parimos novas formas de ver e viver as coisas, as pessoas, as situações. Morremos e nascemos com maior frequência do que imaginávamos ser possível.

E antes que nos acomodemos em qualquer situação, algo novo nos acena do outro lado da rua, e aqueles passos que teremos que dar para chegar lá, muitas vezes parecem impossíveis. A faixa de segurança que deveria nos proteger, na verdade é uma corda bamba há muitos metros de altura, e temos que respirar fundo pra enfrentá-la e vencê-la. Passamos a vida vencendo cordas-bambas.

E assim seguimos. Transitando de uma fase a outra, de um estado a outro, marcando encontros com nós mesmas ali, do outro lado da rua, onde já seremos outra.

Circulamos entre o bem e o mal, a luz e a escuridão, a generosidade e o egoísmo, a razão e o coração, a inocência e a malícia o tempo todo. Somos pudicas e putas, bondosas e megeras, sinceras e dissimuladas. Penetramos na escuridão, descemos ao inferno e voltamos à luz e nesse turismo constante levamos réstias de luz para o escuro e sombras para a luz, aprendendo e ensinando, incansavelmente.


Transitamos.

Em certo momento, nos atrevemos a desobedecer um farol vermelho numa esquina perigosa, à noite, porque já aprendemos que a vida oferece perigos e temos que agir a nosso favor, mesmo que isso desagrade as leis do trânsito. Por outro lado, percebemos que um farol verde sinalizando passagem livre não significa necessariamente que devamos avançar sem olhar, porque já adquirimos alguma prudência quebrando a cara pela vida.

Enfim, entendemos que quem deve determinar nossas rotas e o ritmo em que avançamos somos nós. E que não precisamos pedir autorização a ninguém para atravessarmos nossos precipícios, porque, afinal, somos nós que responderemos por isso, mais ninguém.

Frequentemente penso que viver não é estar de um lado ou de outro. Mas é, justamente, estar trêmula sobre a corda-bamba. Transito daqui pra lá e de lá pra cá cheia de medo e de prazer. E penso que viver, afinal, deve ser isso.


Ana Lúcia Sorrentino