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terça-feira, 13 de março de 2012

A Literatura enquanto exercício vital! – parte 4

ENTREVISTANDO LÍVIA GARCIA-ROZA



Quando perguntei se Lívia tinha algum ritual para escrever, ela me disse que não. Escreve todo dia. Escreve na parte da manhã e à noite, deixa um caderno perto da cama. Prefere escrever em blocos amarelos de papel e depois passar para o computador. Posta todo dia na internet. Escreve bastante e quando as idéias vêm de forma atropelada, as anota e as guarda para depois. Depois de escrever um romance no papel, quando ele está mais estruturado, passa para o computador. Disse então, em tom confessional, que sempre escreveu besteiras. Escrevia nas paredes, nas carteiras da escola, nos banheiros, na areia da praia e também fazia isso oralmente. E veio com uma frase curta, mas profunda: “Escrevo porque é necessário escrever”. Disse que o ser humano não pode não narrar. Se não escreve ficção, o ser humano precisa se contar. Somos seres da palavra. E eu tenho isso muito forte em mim. Quando termina um romance e ele é publicado não o relê mais. “Perco a relação com a história depois de publicada. Em compensação os livros tornam-se casas, casas às quais posso retornar de vez em quando, como agora em que estamos falando sobre eles”.
 

Quanto ao público de seus livros ela mesma diz que as histórias brotam sem faixa etária. Falam da natureza humana. E afirma: “É preciso dar crédito à Freud, quando disse que o amor e o ódio são faces de uma mesma moeda. É da natureza humana isso. Somos feitos de conflitos. A família é um canteiro de problemas. A família se suporta, mas há momentos em que há carinho e ai vem a culpa por odiar. Faz parte da vida. Tem uma hora em que não se quer a família por perto. Sentir essas coisas é vida. Faz parte da vida. E a Literatura é o que vai desarrumar você. E te fazer pensar. Pensar em algo inédito, às vezes bizarro. É isso que move a gente. E não todo mundo pensando igual. Claro que dá trabalho e ameaça ser diferente. O sentimento de não pertencimento que dá ser diferente não é fácil. É também preciso se adaptar quando a banda toca. Ou arrisca-se a ficar falando sozinha. Mas temos de encarar essa diferença, esse é o nosso bem maior. Só assim temos o que trocar. Os casamentos quando entre diferentes são possíveis. Trazem novidade um ao outro – e o outro é o Outro. Claro que há momentos em que temos recaídas infantis. Principalmente quando se é jovem. Ser jovem é um sofrimento. Depois se vai aprendendo a lidar melhor com o mundo. É quando as coisas criam nuances.”

Por fim, para arrematar a entrevista perguntei para ela da sua relação com a infância. Seu texto infantil revela a diferença de olhares que existe entre o universo infantil e o adulto. A personagem Betina resolve querer um elefante de verdade para tomar conta de suas bonecas. Quando finalmente se faz ouvir e conhece um elefante de verdade, percebe que o tamanho do elefante é tal que poderia amassar suas bonecas. Volta para casa inconformada e já no dia seguinte começa a pensar em ter... uma girafa. Betina vê o mundo de um jeito e os pais de outro. Eu então lhe disse que me espantei em ver a visão tão contemporânea que ela tem sobre a infância. Betina é uma criança de hoje. As personagens de Lívia são seres que você pode encontrar nas ruas das cidades brasileiras a qualquer hora e minuto. Ela ri dessa minha observação. Ela então contou que sempre teve sua criança interior muito solta e que seu olhar tem a ver com o humor por isso. E terminou com a frase: “É preciso ir além da dor. Precisa dizer mais?”

Eu, se fosse você, iria atrás da obra dessa autora. Não é fácil encontrar seus livros nas livrarias. É preciso encomendá-los, porque sua obra é um desses tesouros escondidos que vivem à parte da mídia.

Por Ana Lúcia Brandão

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

A Literatura enquanto exercício vital! – parte 3

ENTREVISTANDO LÍVIA GARCIA-ROZA



Lívia nos disse que teve uma infância e adolescência com uma convivência farta com o universo masculino. E uma vida voltada para a exterioridade, foi uma intensa leitora da vida. Todo acontecimento ela tornava uma história. Os irmãos a chamavam de mentirosa. Já a mãe a intitulava de “imaginosa”. Na adolescência, quando a maioria dos jovens tem essa noção de isolamento, cultivou também uma vida interna, com um razoável equilíbrio. Disse que seu pai sempre foi um homem da palavra. Ele exercia uma relação de muita liberdade com a palavra. Era comum acordar a filha recitando alguma poesia em voz alta. Portanto diz Lívia: “a palavra me pegou desde cedo. Fiz o percurso da palavra – pelo Teatro, pela Psicanálise e agora pela Literatura. A palavra é meu móvel”. Enquanto psicanalista acolheu a palavra do outro e deu palavras para o outro. E depois a literatura foi um processo muito intenso. Durante a vida adulta teve uma forte convivência com o universo feminino.

Diz Lívia: “A questão da mulher me interessa sobremaneira, é de uma riqueza inesgotável. Cada mulher se inaugura. Não tem modelo para ser mulher. Hoje em dia cada uma se inventa. Se ganharam, ganharam a vida e com isso tiveram que se fazer sozinhas. É um trabalho árduo, cheio de plasticidade e um tanto de loucura. Ouvi muito a fala da mulher. E a escuto com muito interesse. Como mãe de mulheres você escorrega toda hora. Elas te desafiam, te confrontam. Fazem você agir. Ter uma vida movimentada. É um universo muito rico. Vital! Veja a Gilda (de “Solo Feminino”) ela batalha pelo amor e por sua sexualidade. Escrever é isso. É um desafio na linguagem. É também uma surpresa que eu deixo acontecer. Essa questão da linguagem e da brasilidade, da busca do linguajar regional, é tão rico tudo isso (obs: a mãe de Matilde em “O sonho de Matilde” se expressa como uma mineira do interior). E você vai fazendo e o livro vai acontecendo. Como sempre precisei muito falar, contar histórias, eu sempre observei o ser humano na farmácia, no dia a dia. Então transbordei a escrever. E tive paciência para aprender a lidar com a internet. E com isso veio uma nova experiência, a dos posts. Comecei a escrever posts sobre os mais variados temas. As pessoas gostaram muito. Foi aparecendo gente e mais gente. Até que a editora quis publicar esses textos curtos, de leitura rápida na forma de livro. Chama-se “Faces”.

Ela fez o livro por áreas de interesse como: Cotidiano, Família, Psicanálise, Infantil. Foi uma experiência interessante, que mantenho até hoje. Posto de duas a três vezes no Facebook, por exemplo. Quando escrevo, é claro que a literatura é parcialmente ficcional e parte verdadeira. Há histórias e episódios da convivência familiar que rendem boas histórias. Enquanto leitora eu gosto de ler muitos autores nacionais e tenho uma preferência pela Literatura latino-americana. Acompanho também a poesia feita hoje, os novos poetas. E gosto da leitura de ensaios. O último que me dei de presente foi a coleção de ensaios de Otto Maria Carpeaux em quatro volumes “História da Literatura Ocidental” (Editora Leya)”.
Por Ana Lúcia Brandão


continua...
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terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

A Literatura enquanto exercício vital! - parte 2


ENTREVISTANDO LÍVIA GARCIA-ROZA
Para início de conversa tive de pedir a colaboração do pessoal da Casa de Livros, que gentilmente me enviou vários títulos dessa autora. Foi quando descobri que Roza está decidida a marcar sua presença no campo literário brasileiro. Ela tem por volta de doze obras publicadas. E obras para adultos (romances e contos), adolescentes (romances), pré-adolescentes (diários) e crianças (“A casa que vendia elefante” e “Betina tem um problema” – ambos da Editora Record com ilustrações de Mariana Massarani). É espantoso que uma escritora se dedique á Literatura e espalhe seu trabalho em tantas fases de vida. No Brasil, comumente escritores dedicam alguns títulos às crianças e adolescentes, em geral quando têm filhos, na forma de uma concessão à grande Literatura. João Ubaldo Ribeiro tem dois, Nélida Pinõn tem um. Já Lívia, notamos que escreve para quem quiser ler, sem dirigir sua literatura para cá ou para lá. Isso revela um certo ecletismo e uma visão de mundo bem aberta e antenada com a realidade do século XXI. Eu me dediquei a ler um número generoso de romances com protagonistas-mulher, seus sonhos, desejos, realizações e frustrações em uma variedade enorme de situações de vida presentes em livros como “A palavra que veio do sul”, “Solo feminino”, “O sonho de Matilde”, “Meu marido”. “Cartão-postal”, “Milamor”, “Cine Odeon”, “Ficções fraternas”. Descobri que “Cine Odeon” e “Solo feminino” esbarraram perto do Prêmio Jabuti de Literatura (provavelmente em “autora revelação” e “Milamor” esteve entre os finalistas do Prêmio São Paulo de Literatura no ano passado.


Em “A palavra que veio do sul”, ela retoma o tema dos pais separados em um momento bem posterior à separação, já que o pai está novamente casado e apaixonado pela nova mulher e a mãe busca um amor na internet e não percebe um apaixonado, Wanderley que a rodeia no cotidiano e que se contenta em ficar amigo da filha e cuidar dela quando a mãe precisa sair. O texto já começa assim: “Mamãe estava deitada no chão da sala, venda nos olhos, imóvel. Ao seu lado, eu colava no vestido cada pedacinho que recortava da revista de história em quadrinhos. Sem se mexer, mamãe comentou que eu tinha me tornado estilista a partir de um trauma. Perguntei o que era trauma, e ela respondeu que era um choque infernal. – Um empurrão de elefante, Leninha.” Ou seja, não resta dúvida, que a autora pretende esmiuçar os sentimentos humanos em sua produção literária. 
O romance “O sonho de Matilde” trata da relação de uma família do interior, de valores rígidos e extremamente limitada intelectualmente. De um momento para outro, a vida familiar leva um choque porque uma das filhas adolescentes do casal tem um surto psicótico. E o texto trata das mudanças nas relações familiares, o sonho de conhecer o Rio de Janeiro como uma experiência complexa e cheia de acertos e desacertos.

“Meu marido” trata de uma mulher do interior que se casa com um policial e vai viver no Rio de Janeiro, onde desfruta de uma vida econômica melhor, só que a convivência com o marido é das mais inusitadas.

Outro título que me impressionou muito bem e que acho bem raro na literatura foi “Solo feminino”, um texto que trata de Gilda, uma mulher em seus vinte e poucos anos, que já trabalha e vive com a mãe e o tio. É muito interessante como Gilda lida com suas relações amorosas, dribla um fã e persiste na realização de seu sonho amoroso e profissional. Um texto raro, porque o público entre vinte e trinta anos quase não aparece nos romances de Literatura Brasileira. Muitas editoras recusam textos para essa fase da vida. De antemão não apostam nesse público.
Talvez porque o vestibular e os primeiros anos da faculdade, comumente enveredem os jovens adultos a uma literatura especializada e não apostem na formação mais geral do ser humano. Portanto, esse romance é uma boa surpresa. É um texto que encontra uma linguagem enxuta e plena de acontecimentos bem própria ao universo de vivências desse público.
Enfim, chegamos finalmente ao que a psicanalista e nova escritora Lívia Garcia Roza nos contou sobre sua relação com a leitura e a literatura. De antemão, na orelha de “Solo feminino” somos informados que ela freqüentou por um ano o Curso de Literatura Brasileira e Portuguesa, ministrado pelo Prof. Ivan Cavalcanti Proença.


Por Ana Lúcia Brandão


continua...
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terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

A Literatura enquanto exercício vital! - parte 1

ENTREVISTANDO LÍVIA GARCIA-ROZA


"Subjetividade - Penso que tenho exercido uma grande influência em mim a ponto de me tornado outra."
Lívia Garcia-Roza

Lívia Garcia-Roza publicou “Quarto de menina” (Record) em 1995 quando recebeu selo de obra recomendada pela FNLIJ, entidade que representa o IBBY no Brasil (International Board on Books for Young Children). Meu ponto de vista enquanto leitora profissional concordou dessa vez com a escolha. Das muitas histórias dramáticas sobre separação de pais, essa sem dúvida alguma, vai além. Com o início da narrativa, contada sob o ponto de vista da menina Luciana, o leitor se vê imediatamente mergulhado no seu intrincado universo familiar. O texto privilegia o desenvolvimento do tempo psicológico, ou seja, o tempo em que seus sentimentos emergem. Luciana tem seis anos e é filha única. Seus pais acabam de se separar. O pai é um intelectual de poucas palavras. Justamente por isso, ela o conhece pelas expressões faciais e mais por seus silêncios e expressão corporal. Diz ela: “Papai veio me buscar. Chegou tão velhinho que quase pensei que fosse outro pai. Os pais envelhecem assim de repente?” Já a mãe é o oposto. Fala em demasia. “Mamãe se despediu daquele jeito dela: falando, falando. Sua boca não se cansa nunca!”. O comportamento ansioso da mãe incomoda demais Luciana. Ela está tentando elaborar essa enorme mudança em sua vida, enquanto a mãe a deixa tonta. A menina passa a se dividir entre a casa de cada um dos pais, como comumente acontece. Considera como sua casa, a casa do pai, onde sente que pode ficar consigo mesma sossegada. Certo dia, o pai vem buscá-la na casa da mãe. Diz a personagem: “Diferente, diferente. Falante, simpático, carinhoso. Outro homem.” Assim que chega à casa do pai, tudo está diferente. Ele tem uma namorada nova, Selma.

Bom, Luciana, como toda criança, gostaria que houvesse mais estabilidade nas relações com os pais, mesmo que separados. Mas isso não acontece. A vida lhe impõe uma vivência cheia de surpresas e novos acontecimentos. Isso faz com que a menina vá se ajustando a novas realidades. A narrativa é original no apresentar as nuances de sentimentos contraditórios e inesperados que ocorrem na vida de uma criança quando os pais se separam. O grande nó da questão está na diferença de maturidade que existe entre pais e filha, que a obriga vivenciar crises de identidades e de postura de vida dos pais e para as quais ela, menina de seis anos, não tem elementos para lidar. O interessante é que o texto consegue ser sensível a todas essas questões, mesmo sendo centrado no ponto de vista de Luciana, porque vai além deste e consegue fazer com que o leitor capte o ponto de vista das demais personagens envolvidas. Toda essa perspicácia é resultado da observação sensível da psicanalista e, atualmente escritora full time Lívia Garcia-Roza.

Eu li dúzias de histórias com esse tema nos últimos vinte anos e todas são muito parciais, algumas esbarram em preconceitos, outras se prendem a ser episódicas, o que demonstra que esse tema é polêmico, meio tabu e, portanto, poucos escritores investem nesse terreno tão pantanoso. Vale apontar essa dificuldade. Afinal, a sociedade brasileira lida com essa questão há tempos. No meio escolar, por volta de 45% das famílias hoje são de pais separados. Portanto é uma sorte para nós leitores, sejamos adolescentes ou adultos contar com essa nova voz e olhar tanto na Literatura Juvenil quanto na Adulta. Movida pelo entusiasmo com esse livro e com uma conversa com Fanny Abramovitch sobre a Lívia que resolvi rastrear as outras obras publicadas por ela, lê-las e então entrevistá-la.


Por Ana Lúcia Brandão


continua...
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