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sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Elas e Eles


      Elas saíram às ruas, queimaram sutiãs, questionaram a ordem estabelecida. Espernearam, protestaram, reivindicaram direitos, igualdade, emprego, salário, voto. Batalharam, enfrentaram, conquistaram. Deixaram de servir só ao lar e também de se calar à forte presença do pai de família. Assumiram as contas, a casa, o mercado de trabalho, a profissão, os filhos, os pais idosos, irmãos frágeis, pets abandonados e tudo o que o mundo lhes impõe. Mostraram que podem ser ótimas em tudo o que fazem. Dentro, fora, aqui, além, acolá. São inteligentes, espertas, multifacetadas, multitarefas, interessadas, competentes, eficientes, fortes. Trabalhadoras. Estudiosas. Bonitas. Invadiram a política e, apesar de ainda serem poucas, dão de dez a zero nos quesitos honestidade, clareza, facilidade em se comunicar. Aprenderam a gritar entre trogloditas, pra se fazer ouvir e respeitar. Ganharam votos, visibilidade, credibilidade.
            Eles se fizeram de tontos pra não ir pra guerra. Reativos. Cederam ao que estavam absolutamente impossibilitados de resistir. Adequaram-se ao que era muito inadequado não se adequar. Ou fugiram. Alguns corajosos descobriram o lado bom disso tudo. Passaram a viver coisas que não viviam, conheceram afetos desconhecidos, desfrutam, privilegiados, de relacionamentos inteiros. Mas são raros. Os preguiçosos procuraram novas saídas, menos trabalhosas do que mudar. A nudez escancarada, nem mais vendida, mas publicada gratuitamente em quantidade industrial, parece tê-los desanimado... A agressividade de quem precisou aprender a se defender parece tê-los desencorajado... Encontram, com facilidade, em seus iguais ou na virtualidade - esse "quase" -, alternativas à tão dificultosa tarefa de lidar pessoalmente com o que muda o tempo todo, com o que se supera, com o que questiona, com o que se pode viver intensamente, mas que demanda coragem. Ah, essa virtualidade, coisa facilitadora para os relacionamentos... Uma só tecla - delete -, um só comando - bloqueio -, e as desavenças se resolvem "civilizadamente".
            Elas reagem às leis do mercado. Quanto mais rara a "mercadoria", mais cara. Não basta ser bela e competente para conseguir um companheiro. Não direi nem um "bom companheiro", porque já seria querer demais. E elas acreditam que precisam disso, porque desde o berço foi o que lhes ensinaram. Nos contos-de-fadas, nas histórias de princesas, nas brincadeiras de casinha... Não bastasse isso, a que meninas modernas até resistem, a sociedade volta seu olhar torto a toda solitária, a toda celibatária, a toda mulher que não pensa em ser mãe. Há, também entre elas, as corajosas. Mas para que uma mulher se sinta livre como os homens se sentem naturalmente é preciso ter muito, muito mais coragem do que eles. Até porque todo ato de liberdade, quando praticado por uma mulher, é sumariamente julgado pela sociedade.
            Já belas, elas ainda se enfeitam para atingir padrões que possam atrair a atenção de um raro macho alfa. Pode-se atribuir essa obstinação à natureza, à cultura, à publicidade... Talvez seja um fator a se considerar o fato de que, enquanto para eles, cultuar Onã é prática natural desde sempre, para muitas delas, por incrível que pareça, ainda é tabu. Mas, também, por incrível que pareça, muitas ainda consideram que ter um homem a tiracolo lhes confere um status mais elevado... Assim, andam sobre plataformas e agulhas pra alcançar a altura "adequada" e a elegância "necessária". Espremem seus seios em bojos emborrachados pra que seus colos fiquem lindamente estufados e seus mamilos devidamente escondidos. (Percebi recentemente que mamilos marcados sob blusas leves podem ser considerados ofensa pessoal, não só a homens, mas a mulheres!). Maquiam-se, camuflam-se, rejeitam sobremesas, sacrificam-se, gastam com tratamentos sofisticados, perdem a expressão com preenchimentos e botox, entram na faca, negam a própria idade... São capazes de contorcionismos para agradar à plateia enfadada...
            No frigir dos ovos, depois de tantas batalhas vencidas, ganham menos do que eles, nas mesmas funções. Enfrentam tripla jornada e estão sempre cansadas. São culpadas de todas as agressões de que são vítimas, de todos os fracassos familiares, por todos os filhos-problema. Correm, permanentemente, o risco de serem esculhambadas ou agredidas em praça pública por machistas rejeitados, sem que um cidadão, um policial, um anjo da guarda, tome suas dores e interceda a seu favor, covardes de carteirinha, sem pudor.
            São traídas, humilhadas, constrangidas, esbofeteadas, espancadas, estupradas, e assassinadas quando traem ou abandonam companheiros violentos. E, às que se negam a aceitar relacionamentos desiguais, ou se aborrecem com pavonices masculinas, quase sempre resta a solidão.
            Será que algum dia existiu mesmo o convívio amoroso entre homens e mulheres? Será que ainda é possível o gozo compartilhado, não só na cama, mas na vida? Desejos coincidentes, planos comuns, caminhos percorridos juntos, respeito, admiração e carinho? Será que a doçura do amor se perdeu irreversivelmente nesse mundo de competição e revanchismo, ou ainda tem jeito? Será que ainda poderemos escapar de todos os estereótipos modernos, sermos gente e não coisa a ser vendida, encontrar não só sexo selvagem, mas sentir prazer de verdade por estar com alguém?             

                                                                                                                                                                                                                                                   Ana Lucia Sorrentino
                                                                                                                                                                                                                                                        24/11/2015


sexta-feira, 21 de junho de 2013

Emoção não tem idade, em qualquer época da vida podemos amar




Preconceitos em geral inibem as pessoas mais velhas e evitam que se apaixonem, namorem com o cônjuge ou encontrem um novo parceiro. Mas é ao atingir a maturidade, depois de muitas experiências, que o idoso domina as frustrações e melhor sabe aproveitar os momentos prazerosos. Idosos devem trabalhar, sair, viajar, dançar, namorar, se apaixonar, ter fantasias. Viver.



O amor, cedo ou tarde, é sempre o mesmo. O corpo pode mudar, mas não os sentimentos. Depois de muitas experiências e também de desilusões, a pessoa mais velha é capaz de amar com intensidade, mas sabendo lidar com as frustrações inerentes a qualquer relacionamento. Ao contrário dos jovens, torna-se menos exigente e sabe valorizar os bons momentos.

Existe um ditado que diz: “Se a juventude soubesse, e se a velhice pudesse”. Hoje, acho que a juventude ainda não sabe, porém a velhice pode. Cinquenta, sessenta ou setenta, até oitenta ou mais - tanto faz. Os exemplos estão por toda parte. Com uma vida saudável, somos iguais ou melhores depois da maturidade.

O terapeuta americano James Hillman (79), junguiano, escreveu em 1999 o livro A força do caráter e a poética de uma vida longa, no qual faz uma abordagem revolucionária sobre a terceira idade. No capítulo sobre o erotismo observa que, à medida que os poderes físicos decrescem, solta-se a imaginação que fica mais forte e extravagante.

Aceitamos com maior facilidade que um homem mais velho tenha vida sexual ativa; nossa reação costuma ser oposta quando se trata de mulher. Afinal, a tradição sugere que, após os sessenta anos, ela cuide dos netinhos ou tricote em casa. Nada contra tais atividades. Mas é perfeitamente possível ser uma avó amorosa, fazer trabalhos manuais (ou outros) e usufruir a presença do marido ou do companheiro, reservando momentos de intimidade para os dois. Viajar, sair para dançar, namorar, tudo está em aberto. Os que estão sem par, como Jack Nicholson e Diane Keaton no filme Alguém tem que Ceder, apaixonam-se com o mesmo entusiasmo que tinham aos vinte ou trinta anos.

No entanto, é comum pessoas mais velhas sentirem culpa por ter fantasias sexuais, ridículas por ainda pensarem em namoro, em encontrar alguém. Acham que precisam justificar-se. Mas homem e mulher necessitam do estímulo adequado e da presença de alguém que também sinta desejo. E, sem as fantasias e a imaginação, nem o Viagra funciona.

Atualmente vemos mães e pais de filhos adultos, casados ou sozinhos, que trabalham ou voltaram a estudar, como pessoas sem idade. No convívio com os mais jovens percebem que não são diferentes. Ao contrário, sua experiência de vida e entusiasmo ajuda a fazer amigos, e o prazer que sentem em participar de grupos de várias idades continua o mesmo. Não sentem necessidade de participar de grupos específicos, os chamados de terceira idade ou melhor idade.

Alguns, é verdade, têm de lutar contra a má vontade dos filhos, que prefeririam a mãe ou o pai em casa, ajudando com as crianças. Passam, então, a ter medo do ridículo. Falta-lhes coragem de viver um romance. Submetem-se: “Isso é coisa de jovem”. Posso garantir que não é terreno exclusivo da juventude. Sentimento não tem idade e é território da alma, que nunca envelhece.

Fomos criados com muitos preconceitos em relação à idade, principalmente as mulheres. “Não fica bem usar roupas coloridas”, ou “lugar de velho é em casa”, ouve-se. Ora, não devemos aceitar que outros determinem a nossa vida. Se quisermos ficar em casa, fazer tricô por prazer, é nosso direito. Mas ficar em casa sentindo-se só, à espera de que a vida passe para agradar aos outros, não faz sentido nenhum. Nossa imaginação continua livre. Podemos criar e concretizar nossos desejos. Na arte, no amor, na vida.

O poeta Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), no poema Amor e seu Tempo, escreveu: “Amor é privilégio de maduros estendidos na mais estreita cama, que se torna a mais larga e mais relvosa, roçando, em cada poro, o céu do corpo”. E: “Amor é o que se aprende no limite, depois de se arquivar toda a ciência herdada, ouvida. Amor começa tarde”.

Escrito por Leniza Castello Branco

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Prazer sexual na terceira idade é possível e perfeitamente legítimo

Mesmo que a potência ou a libido diminuam, o desejo permanece latente e, usando a imaginação, sempre haverá um jeito de satisfazê-lo. Mas só mantém vida sexual ativa quem não se considera velho e não se entrega à depressão, à inatividade. Quem fica lamentando o ninho vazio e deixa de se cuidar torna-se desinteressante e perde a chance de renovar a união antiga ou de viver uma nova.

No filme francês Et si On Vivait Tous Ensemble? (E se Vivêssemos Todos Juntos?), de Stéphane Robelin, dois casais e um amigo solteirão, todos com mais de 75 anos, resolvem morar juntos para fugir da solidão e de um fim de vida numa casa de repouso. Bonito e divertido, o filme toca num assunto que ainda é tabu: a sexualidade na fase madura da vida.

Linda e charmosa, a personagem vivida por Jane Fonda (76) pergunta a um antropólogo que está escrevendo sobre a velhice se ele acha que os velhos têm vida sexual. O estudioso fica atrapalhado e ela lhe diz que é claro que têm, que ela própria se masturba e faz sexo com o marido. O solteirão do filme não fica atrás: procura prostitutas e teme perder a potência.

O que a história nos diz é algo básico: na terceira e na quarta idades as pessoas podem e devem ter vida sexual, namorar, ter fantasias. Mesmo que a potência ou a libido diminuam, ainda há desejo e a imaginação pode ajudar a satisfazê-lo.

Algumas mulheres que atendi no consultório me contaram que após os 60 anos sua vida sexual, com o marido ou um novo namorado, melhorou muito. Várias relataram que só foram experimentar um orgasmo depois dos 50 anos. Maduras, conheceram uma libido que pensavam não existir.

A verdade é que é possível amar, se emocionar, se apaixonar em qualquer fase da vida. Se a pessoa tem saúde, se está bem emocionalmente, poderá viver esse momento sem abrir mão do prazer. Para isso, no entanto, quando os filhos saírem de casa, em vez de ficar chorando e lamentando o ninho vazio, deve fazer novos planos, aproveitar a liberdade.

Se a essa altura o casal continuou junto, mesmo após passar pelos problemas e pelas crises que ameaçam os casamentos, é hora de comemorar, aproveitar a aposentadoria, realizando projetos há muito tempo sonhados, viajando sem preocupações, mudando de casa, ou mesmo de cidade — e tendo prazer sexual.



Duas ou três décadas atrás, quem tinha 60 anos era considerado velho e ia morar na casa dos filhos, cuidar dos netos. Hoje, com essa idade ou mais, estamos cheios de vida, trabalhando e com saúde suficiente para realizar os sonhos que ficaram na gaveta porque havia as crianças para cuidar, ou porque o trabalho não podia ser abandonado, e tantas outras obrigações.

Os netos são adoráveis mas os novos vovôs e vovós podem e devem namorar. Se estão sozinhos, por que não encontrar um companheiro ou companheira? De início, os filhos podem reclamar, criticar a mãe ou o pai por se enfeitar, sair para dançar, ir ao teatro, frequentar um grupo de amigos, mas no fim vão se acostumar e se orgulhar de vê-los felizes e autônomos.

Hoje, as redes sociais ajudam muito. Ninguém precisa ficar sozinho. Tem muita gente no mundo que valoriza mais o caráter, o companheirismo e a filosofia de vida do que a aparência ou o dinheiro. Aproveitar a vida, ser otimista, curtir pequenos prazeres, ter bom humor, saber ouvir são qualidades que atraem.

Agora, quem se considera velho, se entrega à depressão, deixa de cuidar do corpo e só fica em casa, relacionando-se apenas com a família, certamente não terá a menor chance de encontrar uma alma gêmea.

Quando os filhos vão viver a própria vida, o “enfim sós”, não deve ser sentido como solidão, ou final de vida, mas como liberdade e oportunidade para um novo começo.


Escrito por Leniza Castello Branco
Fonte:
 http://caras.uol.com.br/revista/1005/secao/amor/prazer-sexual-na-terceira-idade-e-possivel-e-perfeitamente-legitimo#image0

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Borboletas - Mário Quintana

Com o tempo você vai percebendo que para ser feliz com outra pessoa, você precisa em primeiro lugar, não precisar dela.

Percebe também que aquela pessoa que você ama ou acha que ama, e que não quer nada com você, definitivamente, não é a pessoa da sua vida.

Você aprende a gostar de você, a cuidar de você e, principalmente, a gostar de quem também gosta de você.

O segredo é não correr atrás das borboletas… é cuidar do jardim para que elas venham até você.

No final das contas, você vai achar, não quem você estava procurando, mas quem estava procurando por você..!
(Mário Quintana)




Por Suely Laitano Nassif

domingo, 14 de novembro de 2010

Temática do Feminino



O que é ser mulher?
Como ser mulher?

Mulheres que escrevem...
Mulheres que se tornam conscientes...



AS HORAS
O romance Mrs. Dalloway ficou conhecido pelo filme, baseado na obra homônima de Michael Cunningham, filme no qual Virginia foi interpretada por Nicole Kidman, premiada com um Oscar por seu retrato da escritora britânica. As Horas conta várias histórias, mescla a vida da própria autora (Virginia Wolf) numa personagem e coloca algumas particularidades de Mrs. Dalloway numa dessas histórias. Em Mrs. Dalloway, Virginia descreve um único dia da personagem, quando ela prepara uma festa.

VIRGINIA WOOLF (Londres, 25 de Janeiro de 1882 — Lewes, 28 de Março de 1941) foi uma escritora, ensaísta e editora britânica, conhecida como uma das mais proeminentes figuras do modernismo.
Woolf era membro do Grupo de Bloomsbury e desempenhava um papel de significância dentro da sociedade literária londrina durante o período entreguerras. Seus trabalhos mais famosos incluem os romances Mrs Dalloway (1925), Passeio ao Farol (1927) e Orlando (1928), bem como o livro-ensaio Um Quarto Só Para Si (1929), onde encontra-se a famosa citação "Uma mulher deve ter dinheiro e um quarto próprio se ela quiser escrever ficção".

A sua última obra foi Entre os atos, publicada em 1941, posterior à sua morte.

Suicídio
No dia 28 de Março de 1941, após ter um colapso nervoso Virginia suicidou-se. Ela vestiu um casaco, encheu seus bolsos com pedras e entrou no Rio Ouse, afogando-se. Seu corpo só foi encontrado no dia 18 de abril.
Em seu último bilhete para o marido, Leonardo Woolf, Virginia escreveu:

Querido,
Tenho certeza de estar ficando louca novamente. Sinto que não conseguiremos passar por novos tempos difíceis. E não quero revivê-los. Começo a escutar vozes e não consigo me concentrar. Portanto, estou fazendo o que me parece ser o melhor a se fazer. Você me deu muitas possibilidades de ser feliz. Você esteve presente como nenhum outro. Não creio que duas pessoas possam ser felizes convivendo com esta doença terrível. Não posso mais lutar. Sei que estarei tirando um peso de suas costas, pois, sem mim, você poderá trabalhar. E você vai, eu sei. Você vê, não consigo sequer escrever. Nem ler. Enfim, o que quero dizer é que é a você que eu devo toda minha felicidade. Você foi bom para mim, como ninguém poderia ter sido. Eu queria dizer isto - todos sabem. Se alguém pudesse me salvar, este alguém seria você. Tudo se foi para mim mas o que ficará é a certeza da sua bondade, sem igual. Não posso atrapalhar sua vida. Não mais. Não acredito que duas pessoas poderiam ter sido tão felizes quanto nós fomos.
Fonte: Wikipedia


Suely Laitano Nassif

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Falando de Amor

Semana passada a Suely postou um texto do Jabor – Eu te amo não diz tudo.
E me fez começar a pensar sobre o amor...

Em seguida, adoçou nossas vidas com um vídeo maravilhoso, um trecho do desenho da Disney, Up - Married Life - Carl & Ellie, com a música Book of Love, do Peter Gabriel. Literalmente, me derreti...
E, inevitavelmente, comecei a juntar tudo.



O texto do Jabor é praticamente um manual de instruções sobre como amar.
Nele, ele descreve todos os comportamentos que seriam pra lá de naturais em alguém tomado de amor: O interesse real pelo outro e por sua felicidade, o preocupar-se, ouvir, sacudir quando necessário... Ter atenção, carinho, cuidado, ser solidário e delicado... perdoar, aceitar o outro como de fato é...

O que mais poderia se esperar de quem ama, não?
E, de repente, aquele pequeno trechinho de Up ilustrava à perfeição tudo o que Jabor havia dito. A figura do velhinho, lembrando, com saudades, de um amor de toda uma vida, as cenas de companheirismo, a idade chegando, dificuldades compartilhadas e superadas... e um carinho, um enorme carinho...
E eu comecei a me peguntar o que é que anda acontecendo, que esse tipo de relação amorosa está se tornando raridade...
Vejo pessoas se queixando de solidão e desejando amar por todos os cantos.
Mas também... vejo pessoas com medo. Há um medo de amar no ar, um medo de se entregar, um medo de confiar, um medo, talvez, de sofrer... como se não amar também não fosse sofrer... O que acontece?


Tanto o texto do Jabor quanto Up me reportaram a um amor muito mais compassivo do que ao amor romântico, que é cultural e que vem com um pacote de comportamentos obrigatórios preestabelecidos, que acaba, quase sempre, nos levando ao sofrimento. Nada contra um pouco de romantismo, mas o romantismo deveria vir do coração, e não cumprir um script com marcações rígidas, porque estas não aceitam tropeços, e tropeçar é da natureza humana.

Entramos nos relacionamentos esperando reciprocidade total e imaginando, inocentemente, que o outro adivinhará tudo o que precisamos para nos sentirmos felizes. E, a partir daí, passamos a cobrar dele a manutenção da nossa felicidade.
Inevitavelmente decepcionados, porque nossa felicidade é responsabilidade única e exclusivamente nossa, julgamos que nosso caso de amor não deu certo... E começamos, então, a desenvolver uma série de teorias e mecanismos de autoproteção.


É assim que vejo pessoas se boicotando, e ao amor, o tempo todo.
Conhecemos alguém cuja energia combina incrivelmente com a nossa e cuja presença parece só nos fazer bem, e ficamos com o pé atrás...
Como na música do Los Hermanos: eu encontrei, e quis duvidar... tanto clichê, deve não ser...

Segue-se uma análise impiedosa sobre toda a situação sócioeconômicaculturalcomportamentalvisual daquele que parece nos agradar tanto. E pronto: aborta-se um amor. Porque, é claro, ninguém é perfeito. E só conseguimos aceitar numa boa a imperfeição do outro quando estamos abertos para amar.

E assim, fechados, estabelecemos uma série de condições para que possamos nos atrever à entrega. Pra que eu ame,
é preciso que o outro não dependa de mim...

é preciso que ele não coloque em risco a minha tranquilidade...

é preciso que ele não me tire da minha zona de conforto...

é preciso que eu tenha certeza de que ele me amará também, na mesma medida e do mesmo jeito...

é preciso que se estabeleça um contrato, com uma regulamentação sobre o que podemos, e o que não podemos... e não há de haver imprevistos... rsrs...

Complicado, né?


Em A Arte da Felicidade o Dalai Lama diz:
Quando você mantém um sentimento de compaixão, bondade e amor, algo abre automaticamente sua porta interna. Com isso você pode se comunicar mais facilmente com as outras pessoas. E esse sentimento de calor cria uma espécie de abertura. Você descobre que todos os seres humanos são exatamente iguais e você se torna capaz de se relacionar mais facilmente com eles. Isso lhe confere um espírito de amizade. Então há menos necessidade de esconder as coisas e, consequentemente, sentimentos de medo, dúvida e insegurança, se dispersam automaticamente.


Se o outro parece representar uma ameaça, creio que seja porque nós não o estamos olhando com esse sentimento de compaixão, bondade e amor. E isso é o que nos dá medo.
Imaginar que viver um grande amor será sempre um mar de rosas é inocência.
E imaginar que não viver amor nenhum vai nos salvar de algo também é inocência.
E é por tudo isso que a letra da música do Peter Gabriel, Book of Love, fecha esse raciocínio com chave de ouro:

O livro do amor é longo e chato
Ninguém consegue levantar o maldito
É cheio de gráficos e fatos e figuras
E instruções de dança
Mas eu
Eu amo quando você o lê para mim...

E aí? Vamos nos propor a dançar?

sábado, 7 de agosto de 2010

Eu te amo não diz tudo...

"O cara diz que te AMA... então tá!
Ele te AMA. Assunto encerrado.
Você sabe que é amado porque lhe disseram isso, as três palavrinhas mágicas.

Mas saber-se amado é uma coisa,
Sentir-se amado é outra, uma diferença de quilômetros.


A demonstração de amor requer mais do que beijos, sexo e palavras.
Sentir-se amado é sentir que a pessoa tem interesse real na sua vida,
Que zela pela sua felicidade,
Que se preocupa quando as coisas não estão dando certo,
Que se coloca a postos para ouvir suas dúvidas
E que dá uma sacudida em você quando for preciso.

Ser amado é ver que ele(a) lembra de coisas
Que você contou dois anos atrás,
E vê-lo(a) tentar reconciliar você com seu pai,
É ver como ele(a) FICA triste quando você está triste,
E como sorri com delicadeza quando diz que você está fazendo uma tempestade em copo d'água.
Sentem-se amados aqueles que perdoam um ao outro e que não transformam a mágoa em munição na hora DA discussão.

Sente-se amado aquele que se sente aceito, que se sente inteiro.
Sente-se amado aquele que tem sua solidão respeitada,
Aquele que sabe que tudo pode ser dito e compreendido.

Sente-se amado quem se sente seguro para ser exatamente como é.
Sem inventar um personagem para a relação,
Pois personagem nenhum se sustenta muito tempo.

Sente-se amado quem não ofega, mas suspira;
Quem não levanta a voz, mas fala;
Quem não concorda, mas escuta.
Agora, sente-se e escute: Eu te amo não diz tudo!"


Arnaldo Jabor

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Up - Livro do Amor

Título: Up - Altas Aventuras
Lançamento: 2009 (EUA)
Direção: Pete Docter
Sinopse: Carl Fredricksen (Edward Asner) é um vendedor de balões que, aos 78 anos, está prestes a perder a casa em que sempre viveu com sua esposa, a falecida Ellie. O terreno onde a casa fica localizada interessa a um empresário, que deseja construir no local um edifício. Após um incidente em que acerta um homem com sua bengala, Carl é considerado uma ameaça pública e forçado a ser internado em um asilo. Para evitar que isto aconteça, ele enche milhares de balões em sua casa, fazendo com que ela levante vôo. O objetivo de Carl é viajar para uma floresta na América do Sul, um local onde ele e Ellie sempre desejaram morar. Só que, após o início da aventura, ele descobre que seu pior pesadelo embarcou junto: Russell (Jordan Nagai), um menino de 8 anos.

Trecho do Filme: Up - Married Life - Carl & Ellie
Música: Book of Love
Cantor: Peter Gabriel

terça-feira, 27 de julho de 2010

Muito temos ainda para falar, sobre a alma feminina...

Sobre os papéis que a mulher exerce...
De como ela exerce...
Papéis de filha, de mãe...
De nora, de sogra...
De irmã, de cunhada...

Papéis de dona da casa... de cozinheira, de faxineira...
Papéis de executiva, médica, professora... de todas as profissões

Mulheres que desafiam...
Mulheres dependentes, outras totalmente independentes
Mulheres que se separam e outras que não conseguem por mais que tentem...
Mulheres apaixonadas, sedutoras... que abandonam tudo por um amor...
Mulheres obstinadas... lutadoras...
Mulheres fiéis e outras nem tanto...

Na parábola da águia...
o dilema da mãe que promove o crescimento...
propondo o paradoxo do empurrar para voar...

"A águia empurrou gentilmente os filhotes para a beira do ninho. Seu coração trepidava com emoções conflitantes enquanto sentia a resistência deles. 'Por que será que a emoção de voar precisa começar com o medo de cair?' – pensou. Esta pergunta eterna estava sem resposta para ela.

Como na tradição da espécie, seu ninho localizava-se no alto de uma saliência, num rochedo escarpado. Abaixo, havia somente o ar para suportar as asas de cada um de seus filhotes. A despeito de seus medos, a águia sabia que era tempo. Sua missão materna estava praticamente terminada. Restava uma última tarefa: o empurrão. A águia reuniu coragem através de uma sabedoria inata. Enquanto os filhotes não descobrissem suas asas, não haveria objetivos em suas vidas. Enquanto não aprendessem a voar, não compreenderiam o privilégio de terem nascido águias. O empurrão era o maior presente que a águia-mãe tinha para dar-lhes, era seu supremo amor. E por isso, um a um, ela empurrou, e todos voaram."
(Autor desconhecido)

Por Suely Laitano Nassif

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Amor Casual

Havia fantasiado aquela situação por tanto tempo, e agora ia rolar. E como sempre, as coisas rolavam quando deixava de planejar... quando desencanava. Estava tão cheia de homens enrolados, se desgastara tanto com pretensos garanhões que na hora "h" saltavam fora, que o que viesse era lucro. Um homem que não tivesse medo de ir com ela pra cama já seria um herói. Todas as vezes que questionara isso claramente, as respostas haviam sido sempre evasivas. Medo? Medo de quê? - eles perguntavam, se fazendo de bobos. Tinha medo, sim, isso era inegável. Medo de não saber o que fazer, medo de não agradar, medo de não gostar, medo da própria performance deixar a desejar... O medo se sobrepujava a tudo: ao amor, ao tesão, à curiosidade... Só queria um pouco de carinho, será que isso era tão complicado? A cena de Um Lugar Chamado Notting Hill, em que Julia Roberts pedia a Hugh Grant que não esquecesse de que ela era apenas uma garota querendo ser amada voltava com frequência à sua mente. Estava uma perfeita Julia Roberts: uma garota querendo amor.

Agora conhecera alguém. Aparentava não ter medo de nada. Espontaneidade a toda prova. A questão da possível brochada parecia simplesmente não existir. Um primeiro contato e uma inegável química detonara um processo irreversível de "querotecomercomamaiorurgênciapossívelpeloamordedeus". Um telefonema atrás do outro. Pressa. Torpedos em profusão. Ansiedade, arrepios, expectativa... Mal dera tempo de raciocinar, e já sentira tudo. Talvez assim fosse melhor... nada de pensar, só sentir. Ia viver o agora, como vinha preconizando há um bom tempo... E o tão afamado sexo casual, que até então só parecia ser vivido pelas protagonistas do Sex and the City deixaria de ser tabu. Por que não? Era o que vinha se perguntando há tanto tempo a respeito disso, e de muitas outras coisas. Não tinha nada a perder... Se bem que, depois dessas reticências sempre havia um pequeno ponto de interrogação... Mas, se nunca fizesse, nunca saberia. Daria a cara a tapa, mas havia de quebrar esse encantamento.

Por uma questão de urgência mesclada à falta de tempo hábil, o primeiro encontro se deu, atabalhoadamente, dentro do carro dele, o que só foi possível graças a um insulfilm absurdamente fora dos padrões seguros. Com certeza, quando fossem pra algum lugar melhor, seria mais prudente ir com seu próprio carro... Se policiou pra não começar a raciocinar demais, e não pôr tudo a perder.

Depois de alguns longos segundos em que ele parecia ter sido acometido por alguma espécie de paralisia, olhando-a, com um sorriso de encantamento, ela o estimulou a beijá-la, perguntando-lhe se não era isso o que dissera, repetidas vezes, por celular, estar louco pra fazer. Ele avançou nela como um desidratado numa jarra d' água. Não só beijou. Beijou, lambeu, mordeu, chupou, apalpou... Deus do céu... foi o que ela pensou, imaginando que ele devia estar enfrentando uma seca pior do que a dela, talvez há mais tempo... coitadinho... Deixou, deixou sem reservas, em total abnegação.

Nos intervalos entre um abraço e uma futura mancha roxa, teve oportunidade de fazer algumas perguntas-chave. Quantos anos você tem? A constatação de que ele era quinze anos mais novo que ela a transformou, numa fração de segundos, em pedófila. De onde você é? A origem nordestina projetou, instantaneamente, em sua imaginação fértil, o quadro de uma vida de sofrimento. Pôde vê-lo, retirante, chegando a Sampa com a cara e a coragem, e, provavelmente, mal alimentado. Perninhas finas e bambas... E finalmente: você ainda tem mãe viva? Nooossa... saber que ficara órfão de mãe aos dois anos de idade foi o golpe fatal. Chegava a ser covardia... se pudesse, o adotaria ali, naquele exato instante. O levaria pra casa, lhe daria um pratinho de sopa quente, e o colocaria numa cama quentinha... Coitadinho...

Saiu do carro amarrotada, se recompôs rapidamente, ajeitou os cabelos desgrenhados e foi pra casa pensando. Pensando não. Sentindo. A pele dele era macia, a boca gostosa, o desespero estimulante. Até que isso podia ser bom...

O segundo encontro começou estapafúrdio. Ele vinha de dois plantões de doze horas, seguidos. Tivera apenas uma hora para descansar. O constrangimento dele por ser ela dirigindo não cabia dentro do carro. O lugar que ela escolhera, a dedo, pra que tudo desse certo, foi rejeitado por ele, cuja ansiedade parecia não permitir que se fosse a algum lugar além da esquina. Quando ela sugeriu à recepcionista que lhes oferecesse alguma cortesia, a aflição dele fez com que se arrependesse imediatamente, pois, a seus olhos, ela devia ter extrapolado todos os limites da ousadia.

Depois de uma inspeção prévia em todos os cantos do quarto, ela pediu uns minutos e entrou no banheiro. Tudo parecia meio fora de lugar e não tão limpo quanto deveria. Resolveu passar por cima e curtir o momento. Não era pra isso que estava ali?

Saiu do banheiro, já enrolada numa toalha, e o encontrou mais do que pronto. E, no primeiro abraço, já querendo mergulhar nela, ele soltou uma frase que de tão proibida para a ocasião lhe pareceu quase pornográfica: eu tô morreeendo de medo de gostar demais de você e você só me querer pra sexo.

Ela se liquidificou. Seu estado passou de sólido pra gasoso e seu corpo se transformou num instrumento de caridade. Faça, faça o que quiser... Ele devia ter uma vida tão dura, bem que merecia possuir uma mulher sem restrições, sem muita frescura... Era tão jovem, provavelmente nem devia ter muita experiência naquilo que estava fazendo... Tão viril e forte, tão desesperado e agressivo... Ela previu que estaria quebrada no dia seguinte.

Ele dormiu profundamente. Ela o abraçou e, embora não tivesse sono, acabou cochilando, embalada pela respiração forte provocada pela exaustão dele. Pela janela se percebia a tarde cair e uma chuva gostosa serviu de trilha sonora pra aquele momento tão diferente de tudo o que previra em suas malucas fantasias de mulher em abstinência. Olhou o corpo jovem dele, e viu que, ainda ressonando, ele estava de novo pronto. Sorriu. Brincou com ele. Ele reagiu de imediato, como se estivesse acordado o tempo todo. Era um garoto... Que a usasse, como bem quisesse... Havia pouco tempo agora. Logo ele teria que ir pra outro turno de seu trabalho tão sacrificado. Coitadinho...

Na volta, estavam calados e ele se preocupou em lhe perguntar se estava tudo bem. Ela assentiu, com um sorriso. Despediram-se com beijinhos na boca, como se fossem namorados. E ela o deixou, penalizada por não poder estar mais um pouco ao lado dele, talvez adoçando um pouquinho sua vida, que parecia ser tão dura...

De repente, percebeu que esquecera por completo de si mesma. Nem lembrara de seu próprio prazer, de suas carências, de seus desejos há tanto macerados... Ele não fora nada generoso com ela na cama... mas estava se sentindo agradecida. Ele lhe dera, de pronto, a experiência de que tanto precisava para conhecer um pouco mais sobre si mesma. O quê, por exemplo? - se perguntou, sorrindo. Numa primeira análise, que ainda podia ser muito desejada... E que, provavelmente, nunca saberia fazer sexo casual. Aliás, estava tendo a sensação de que acabara de inventar uma nova modalidade, da qual nunca ouvira falar: o amor casual. Casual, sim. Mas não sexo. Amor.



domingo, 18 de julho de 2010

Começando a estudar o Barba Azul

Olá!

Já que temos visto que se proliferam por aí Brunos e Mizaels e Mel Gibsons, é inevitável chegar à conclusão de que estudar o Barba Azul é imprescindível. Vamos começar?

Antes de apresentar o conto em si, vou propor que comecemos a pensar a respeito do assunto. Dessa forma, você amadurece e se abre para captar nele sua riqueza, e aproveitar suas lições.

Fiquei me perguntando como começar a conversa sobre esse tema, e decidi que minha abordagem começa por aqui: O Barba Azul Existe - e você precisa enxergá-lo.

Encaremos de frente: o mal existe, às vezes pode travestir-se de riqueza e amabilidade, e precisamos estar atentas para nos proteger dele! Temos que nos preparar para enfrentar esses monstros, sejam eles personagens do mundo ao nosso redor, sejam eles parte da nossa psique.

É claro que qualquer pessoa que esteja lendo este post já percebeu que o Barba Azul representa algo de mal. Clarissa, em Mulheres que Correm com os Lobos, o define como um verdadeiro potentado predatório, cuja intenção é nos destruir. Ele pode ser um parente ou conhecido seu, no mundo físico, mas ele também existe dentro de você. É um aspecto de sua psique que trabalha contra a sua natureza, e contra tudo o que for positivo: contra o desenvolvimento, contra a harmonia e contra o que for selvagem.

Ele "surge no meio dos planos mais significativos da alma, isola a mulher de sua natureza intuitiva e a faz sentir-se frágil diante da vida".

E, por que insisto em dizer que o Barba Azul existe, se, no mundo em que vivemos, a mídia privilegia a desgraça, e basta ligar a TV ou abrir o jornal para que o Mal seja cuspido na nossa cara? Será que você já não sabe disso? Pra que ficar estudando o Barba Azul, se são tantos os monstros da vida real, enclausurando famílias inteiras, estuprando as próprias filhas, jogando garotinhas pela janela, escravizando seres humanos, que essa idéia de que o mal existe, e de que precisamos estar preparadas pra nos proteger dele já deveria estar mais do que entranhada em nós.

Pergunto: está???

Estamos preparadas para, na presença do predador, detectá-lo, e combatê-lo? Estamos preparadas para detectar qual parte de nossa psique joga contra nós, e anular o efeito de suas cruéis investidas? Se não, por quê? Vamos pensar nisso.

Quero trabalhar aqui a irrefutável teoria de Clarissa, sobre a negação do Mal.

Qualquer mulher que já tenha parado para pensar na educação que recebeu e no que a sociedade demonstra esperar dela, percebeu que há uma mensagem que se repete, implícita ou explicitamente:

não veja, não tenha insight, não fale, não haja.

Clarissa chama isso de "introjeções sombrias que, para as mulheres, são objeto de controvérsia". Ou seja: você recebe essas mensagens a vida toda, acaba acreditando que são verdadeiras, e as incorpora em seu modo de ser.

Mas... sua mulher selvagem, sua alma, sabe que isso não está certo. O antídoto para o mal, a forma de expulsar o predador, é fazer exatamente o contrário. Clarissa nos aconselha:

"tente prestar atenção à sua voz interior; faça perguntas; seja curiosa; veja o que estiver vendo; ouça o que estiver ouvindo; e então aja com base no que sabe ser verdade."

Um conselho como este pode parecer estranho: veja o que estiver vendo, ouça o que estiver ouvindo. Não é até engraçado? Não!!! Não é engraçado! É muuuito triste. O fato é que somos treinadas, desde crianças, a não ver o que estamos vendo, não ouvir o que estamos ouvindo. Aprendemos, desde cedo, a dourar a pílula. Amenizar as situações. Esconder o que é feio. Usamos eufemismos, palavras à meia-boca, expressões de constrangimento, e varremos a sujeira pra debaixo do tapete. Tanto fingimos não ver o que estamos vendo, que acabamos nos convencendo de que aquilo que estamos vendo realmente não existe. Complicado, não? Nem tanto.

Quem já não mordeu a língua para não chamar de agiota aquele conhecido que vive de emprestar dinheiro a juros extorsivos, porque seria ofensivo? Na nossa sociedade, é falta de educação ou preconceito (veja só!) chamar o gordo de gordo, o careca de careca, o pobre de pobre, o negro de negro, o velho de velho... Ou seja: não podemos dar nomes aos bois, porque é feio.
Temos muito acesso à informação, mas quando os problemas estão muito perto de nós, há uma enoorme dificuldade em se falar abertamente sobre eles.

Infelizmente, ficamos sabendo, a todo momento, de casos e mais casos de famílias inteiras acobertando todo tipo de loucura. Pais pedófilos, que abusam por anos a fio dos próprios filhos, sem que isso venha à tona; alcoólatras que nem ao menos percebem que são alcoólatras, porque ninguém tem coragem de falar sobre isso; mulheres que apanham frequentemente, e que não conseguem pedir ajuda a ninguém; pessoas doentes, que não têm coragem de se assumir doentes... Tanta coisa...

A impressão que tenho é de que se aprende, desde cedo, que quando a coisa parece ser muito feia, melhor fingir que nada aconteceu.

E posso dizer que, se cada um de nós começar a pensar na própria vida, vai encontrar inúmeras situações em que a conclusão a que chegamos foi essa.

Você lembra de algo assim em sua vida? Alguma coisa que foi tão abafada por todos ao seu redor, que você chegou à conclusão de que o melhor a fazer seria fingir não ter visto, não ter ouvido, e não falar nada?

Será que, de tanto passar por isso, você não introjetou essa idéia de não enxergar o que é muito feio ou ruim? De negar a realidade? Pense nisso. E me conte. Abra os olhos e veja, de verdade, o mundo ao seu redor.

Escrever sobre isso me fez lembrar dos três macaquinhos da lenda dos três macacos sábios. Você conhece? Vamos falar sobre ela numa próxima oportunidade!

Vou ficar por aqui, esperando seus relatos de "negação da realidade". Quero muito que vocês se dêem ao trabalho de relatar seus próprios casos, e fazer suas próprias reflexões.

Vou esperar por isso! Trocando, aprendemos!

Beeeijos!!! :)
Analú

quinta-feira, 15 de julho de 2010

A Tentação de Clarice Lispector

Ela estava com soluço. E como se não bastasse a claridade das duas horas, ela era ruiva.

Na rua vazia as pedras vibravam de calor - a cabeça da menina flamejava. Sentada nos degraus de sua casa, ela suportava. Ninguém na rua, só uma pessoa esperando inutilmente no ponto de bonde. E como se não bastasse seu olhar submisso e paciente, o soluço, a interrompia de momento a momento, abalando o queixo que se apoiava conformado na mão. Que fazer de uma menina ruiva com soluço? Olhamo-nos sem palavras, desalento contra desalento. Na rua deserta nenhum sinal de bonde. Numa terra de morenos, ser ruivo era uma revolta involuntária. Que importava se num dia futuro sua marca ia fazê-la erguer insolente uma cabeça de mulher ? Por enquanto ela estava sentada num degrau faiscante da porta, às duas horas. O que a salvava era uma bolsa velha de senhora, com alça partida. Segurava-a com um amor conjugal já habituado, apertando-a contra os joelhos.

Foi quando se aproximou a sua outra metade neste mundo, um irmão do Grajaú. A possibilidade de comunicação surgiu no ângulo quente da esquina, acompanhando uma senhora, e encarnado na figura de um cão. Era um basset lindo e miserável, doce sob a sua fatalidade. Era um basset ruivo.

Lá vinha ele trotando, à frente de sua dona, arrastando seu comprimento. Desprevenido, acostumado, cachorro.
A menina abriu os olhos pasmados. Suavemente avisado, o cachorro estacou diante dela. Sua língua vibrava. Ambos se olhavam.

Entre tantos seres que estão prontos para se tornarem donos de outro ser, lá estava a menina que viera ao mundo para ter aquele cachorro. Ele fremia suavemente, sem latir. Ela olhava-o sob os cabelos, fascinada, séria. Quanto tempo se passava ? Um grande soluço sacudiu-a desafinado. Ele nem sequer tremeu. Também ela passou por cima do soluço e continuou a fitá-lo.

Os pêlos de ambos eram curtos, vermelhos.
Que foi que se disseram? Não se sabe. Sabe-se apenas que se comunicaram rapidamente, pois não havia tempo. Sabe-se também que sem falar eles se pediam. Pediam-se, com urgência, com encabulamento, surpreendidos.

No meio de tanta vaga impossibilidade e de tanto sol, ali estava a solução para a criança vermelha. E no meio de tantas ruas a serem trotadas, de tantos cães maiores, de tantos esgotos secos - lá estava uma menina, como se fora carne de sua ruiva carne. Eles se fitavam profundos, entregues, ausentes de Grajaú. Mais um instante e o suspenso sonho se quebraria, cedendo talvez à gravidade com que se pediam.

Mas ambos eram comprometidos.
Ela com sua infância impossível, o centro da inocência que só se abriria quando ele fosse uma mulher. Ele, com sua natureza aprisionada.
A dona esperava impaciente sob o guarda-sol. O basset ruivo afinal despregou-se da menina e saiu sonâmbulo. Ela ficou espantada, com o acontecimento nas mãos, numa mudez que nem pai nem mãe compreendiam. Acompanhou-os com os olhos pretos que mal acreditavam, debruçada sobre a bolsa e os joelhos, até vê-lo dobrar a outra esquina.
Mas ele foi mais forte que ela. Nem uma só vez olhou para trás.


Por Suely Laitano Nassif

terça-feira, 13 de julho de 2010

Só 20 minutos...

O espelho reflete uma silhueta pálida, cansada. Um corpo imóvel, relaxado, branco. Longos cabelos negros, chegando à cintura, parecem pesar demais para o pescoço tão fino. Os seios fartos, de bicos muito grandes, cheios de leite. O ventre ainda inchado. Ela se olha, quase sem se ver. Não a agrada a própria aparência. Suspira. Liga o chuveiro, rapidamente. Entra no banho. A água lhe alivia o cansaço. Fecha os olhos, sente os pingos nos lábios. Serão vinte minutos.

Vinte minutos pra si mesma. Nem pode crer. Ainda não relaxou de todo, esperando qualquer chamado. Habituou-se... Esses minutos devem ser aproveitados, curtidos. Muito xampu, condicionador, sabonete perfumado. Vai fingir que não escuta o marido chamar, o filho maior batendo à porta, o bebê chorando. Que se virem. Ao menos por vinte minutos num dia...

Abre totalmente a torneira, sentindo no peito o jato frio. Arrepia-se. Fecha, e sai pingando pelo banheiro. Enrola os cabelos numa toalha, joga outra atrás do pescoço. Sente o hidratante umedecendo o corpo todo. Está com a barriga flácida, a pele ainda ressentida da gravidez. Ficou imensa... Ouve o choro do pequeno, ao longe. Quase hora de mamar... Podiam pegá-lo, ao menos. A panela de pressão faz um barulho enorme... Será que ninguém sabe que é preciso abaixar o fogo?

Passa o largo pente de madeira pelos fios negros, ensopados. O espelho agora reflete uma palidez limpa, e isso a agrada mais. Já tem a expressão mais descansada, ensaia sorrir de prazer. Está fresca. De um frescor que durará apenas alguns minutos, mas tudo bem. Passa um brilho rosado nos lábios, e faz biquinho, flertando consigo mesma. A TV está ligada no volume máximo. Será que são surdos? É o programa de esportes. O telefone toca insistentemente. O marido grita ao filho que atenda. - É pra mãe! - Assim fica impossível se alienar...

Está pronta, e passaram-se apenas quinze dos vinte minutos com que se presenteia todo dia. Que fazer dos outros cinco? Não deve desperdiçá-los. Olha em volta, não há livro algum pra ler. Senta sobre a tampa do vaso sanitário, encosta a cabeça no azulejo frio. Fecha os olhos. Conta até sessenta. Mais uma vez. E mais uma. Faltam só dois minutos. Cochila. Acorda, sobressaltada. Batem à porta. - Tem roupa pro tintureiro? Ergue-se, assustada. - Não!

Seus vinte minutos se foram. É o limite. Mais que isso, seria luxo excessivo. Nem tem tempo de abrir a porta, porque o marido já o fez. Tem o hábito de abri-la por fora, com a chave do carro. Tão respeitador... O filho despenca banheiro adentro, desesperado pra fazer xixi. O bebê chora. Ela corre, pra lhe pegar. Se veste rapidamente. Dispensa o tintureiro. Desliga o fogo. Tira o fone do gancho. Senta-se em frente à TV, e coloca o bebê no peito. E tenta ainda se manter um pouco alienada, enquanto o bebê mama e o marido, inconsolável, lhe pergunta - "Por quê?, meu Deus! Por quê tem que demorar tanto no banho?"

O que responder?...