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terça-feira, 2 de novembro de 2010

Comentário sobre o conto “Amor”, de Clarice Lispector

Enfocando a temática feminina e na intenção de pensarmos mais profundamente nos vários papéis que a mulher exerce, e como exerce, em sua natureza multifacetada, a Suely está postando uma trilogia de Clarice Lispector.

Nesse post, temos o conto Amor.
E eu... eu me descabelo! rsrsrs... Por quê? Porque os textos de Clarice são tão absurdamente ricos, e já falam tanto, que me parecem prescindir de comentário. É ler, se deixar tocar, se emocionar, e pronto. Pra que mais? Por instantes me deixo dominar por uma sensação de inutilidade total...

Mas aí há o paradoxo: não é preciso escrever mais nada, mas se quiser fazê-lo, cada conto poderia render um livro. Ainda mais que cada situação que ela coloca, cada sentimento que descreve, me reportam aos estudos de Clarissa, de Mulheres que Correm com os Lobos. As ligações são diretas, é inevitável.
Me ocorre que se as personagens de Clarice tivessem a oportunidade de ler os estudos de Clarissa, suas angústias seriam tão menores...

Opto por não escrever o livro, que, afinal, não caberia no blog, rsrsrs... e por comentar aquilo que, de pronto, mais me toca. Mas, faço isso na esperança de que nossos leitores se envolvam e aceitem nosso post e meu comentário como provocação para que se manifestem. Como aconteceu no post anterior, A Fuga, em que recebemos comentários riquíssimos, que agregaram imenso valor ao trabalho. Queremos agradecer demais pela participação dos que se envolveram.

Antes de partir para o comentário em si, quero dizer que estamos falando sobre situações femininas, mas não estamos falando só para mulheres, nem só de mulheres. Qualquer homem que vier a ler esse conto e este comentário poderá se enxergar em alguns momentos da vida. Todo homem também tem o feminino dentro de si. E questões da alma sempre me parecem acima das questões de gênero. Basta ler com os olhos da emoção.

Vamos lá!
Li, e reli, e reli, e o que mais grita, para mim, em Ana, a personagem do conto, é o medo da exuberância da vida.
Quando jovens, e nos descobrindo, muitas vezes nos assustamos ao perceber essa exuberância. Há tanto para ser vivido, tanto para se aprender, tanto a se fazer, tanta gente pra se conhecer, tanto prazer pra se sentir, que não raro nos percebemos nessa exaltação perturbada, nessa felicidade insuportável... O que fazer de nós mesmos?

Não sei exatamente que mecanismos externos ou internos nos fazem temer uma vida vivida em sua plenitude. Pais rígidos ou castradores, o envolvimento em alguma religião limitadora, escolas que funcionam mais como quartéis do que como estímulos para nosso crescimento, amigos preconceituosos, experiências que nos traumatizam por um ou outro motivo... regras que não nos servem, mas que somos treinados a obedecer desde o berço...
Não sei. Sei que nascemos livres e há um enorme empenho do meio para que acreditemos que, se vivermos nossa liberdade, nos perderemos em algum ponto do caminho.

Assim, Ana se refugia numa vida regrada. Que lhe parece configurar uma vida de adulto.
Um lar e a responsabilidade real de cuidar do marido e dos filhos parece dar sentido à vida. Disciplina, rotina, dedicação constantes a colocam no prumo.
Amar, casar, ter filhos e dedicar-se profundamente a eles faz parte da natureza feminina. Seguir algumas regras que nos servem, ter rotina e disciplina podem ser atitudes extremamente saudáveis. Viver isso tudo nos faz crescer, florescer, amadurecer.

Mas fazer do casamento, da criação de filhos, e da obediência a regras e disciplinas rígidas um escudo para se proteger da riqueza do mundo e da vida acaba, inevitavelmente, em crise.
Cria-se um mundo ideal, redondinho como uma linda gema de um ovo saudável. Bonita, brilhante, encapsulada numa película protetora que, às vezes, nos ilude simulando enorme resistência.

Enquanto todos precisam dela e aquela hora perigosa não chega, Ana se sente segura. Mas quando as árvores que plantou começam a rir dela, há inquietação no ar.
Embora queira adiar a crise, insistindo em cuidar da família à sua revelia, algo inusitado abre um portal que leva à sua alma, e a gema se quebra. Escorre, gosmenta, suja tudo, provoca confusão e constrangimento.

Quando vivemos em função do meio e viramos as costas para nós mesmos, um sentimento inusitado às vezes faz isso. Abre as portas para nossa alma. São as situações iluminadoras. Uma lembrança de infância, um som, um cheiro... e de repente nos deparamos com nós mesmos. Ana viu um cego mascando chicles, e o rompante de amor que sentiu a iluminou e a colocou em contato direto com sua alma. E o que viu?
Em Mulheres que Correm com os Lobos, Clarissa Pinkola Estés faz uma linda comparação entre o deserto e algumas mulheres. Ela diz que embora o deserto seja árido na superfície, sob ela há uma vida riquíssima, prestes a explodir a um menor sinal de água. Toda mulher tem, dentro de si, sua versão primeva, que se mantém íntegra independentemente do quanto tenha sido maltratada pelo meio externo.
Ana viu sua versão primeva, seu subterrâneo fértil. Que susto!
O contato com o divino nela parece ter provocado uma ruptura com as leis externas que até então pareciam norteá-la. E o que vem a seguir é semelhante a uma crise de labirintite, tal a intensidade do sentimento. Ana se assusta, fica tonta, e acaba por mergulhar no Jardim Botânico, um espaço de absurda riqueza, fertilidade, exuberância, que a faz perceber o quanto a vida asséptica pela qual optara era limitadora. E, a partir daí, um mundo de sensações a faz sentir-se invadida pela pior vontade de viver.

E, por que pior vontade de viver? A impressão que tenho é a de que Ana está tão afastada de seus anseios mais íntimos que o contato com tudo que é selvagem em si mesma a aterroriza e lhe parece negativo e sujo. Sente fascínio, nojo, medo, tudo tão intensamente que se apavora.
Volta pra casa, abraça o filho e sente medo de esquecê-lo, tão possuída está pela sede de viver.

A cena de Ana abraçando o filho e pedindo-lhe que não a deixe esquecê-lo me reportou aos meus próprios temores, quando, depois de longos períodos de amamentação e dedicação exclusiva aos meus filhos, em que me sentia a mulher mais feliz do mundo, começava a perceber a vida lá fora piscando pra mim. Creio que quase todas as mães passem por isso. Uma imensa vontade de voltar a viver algo que não só a maternidade, mas uma imensa culpa, por imaginarmos que deveríamos ser só mães, e nos sentirmos plenamente felizes com isso. De onde tiramos isso???

O contato com sua alma a rejuvenescera.

Ana, temerosa, talvez queira voltar ao conforto da segurança forjada em detrimento da felicidade: pede ao filho que não a deixe esquecê-lo, e permite que o marido a afaste novamente do perigo de viver.
Afinal, por que tememos a liberdade, e por que consideramos que viver plenamente pode ser perigoso?

Vejo como vida de adulto não aquela em que estabelecemos regras para nos obrigarmos a cumpri-las, e não sairmos da linha, mas aquela em que não tememos usar a liberdade a nosso favor, para crescermos continuamente, experimentando o novo e conscientes de que podemos sobreviver a tudo.

Uma das coisas mais bonitas que escutei nos últimos tempos veio de um amigo, que tem me ensinado muito. Dizendo-lhe da imensidão de sentimentos que me acomete às vezes, e confessando-lhe não saber o que fazer com isso, ele me respondeu que não me assustasse, que apenas precisava apertar uns parafusos na minha cabeça... rsrsrs...
Tamanha demonstração de aceitação vindo da parte dele me ajudou a aceitar meus próprios sentimentos. E é a partir da auto-aceitação que nos reorganizamos e partimos pra vida, sem medo de ser feliz. Mas, para que nos aceitemos, é preciso que estejamos em contato permanente com nossa alma, e consigamos manter com ela saudáveis diálogos esclarecedores.

Ana Lúcia Sorrentino

domingo, 1 de agosto de 2010

Comentando... 3ª Parte

Esta semana estivemos às voltas com três posts:

- Tentação, de Clarice Lispector;
- Amor casual, um conto de minha autoria;
- Sedna, a mulher que se apaixonou por um cachorro, uma lenda esquimó.

E aí me aparece Sedna, a linda mulher que viveu isso. Uma mulher livre a ponto de decidir a quem amar respeitando apenas sua própria vontade. Apaixona-se e se casa com um cachorro.
Creio que, aqui, cachorro no seu melhor sentido, aquele que oferece um amor puro e incondicional. Fiel. Companheiro.

Sedna respondeu aos apelos da própria alma, rejeitou os homens, e se casou com um cão. E quero ver alguém me dizer que ela não tinha direito de fazer isso...
O amor era dela, o sentimento era dela, a vida era dela... que coooisa!!!!!
Mas... os homens de seu povoado não pensaram assim. Numa TOTAL falta de respeito à natureza, acharam que Sedna não tinha direito de lhes rejeitar por um cão. E cometeram todo tipo de crueldade contra essa mulher.
Alguém conhece alguma história assim? Isso não é lenda. Hoje, terceiro milênio, 2010, PROLIFERAM histórias assim...

Infelizmente, muita gente ainda crê que pode mandar nos sentimentos alheios. Que pode EXIGIR amor. Que pode comprá-lo, mesmo que o outro não queira vender!!! Que pode castigar quem se negar a “fornecer”...
Nooossa... como fico triste quando penso nisso...
Sedna foi vítima das mais brutais violências, e, ainda assim, tudo o que fizeram contra ela, ela transformou em amor. Seus dedos se transformaram em alimento, que garantiria a sobrevivência daqueles mesmos que o cortaram.
E, embora ela tivesse poder para castigar a todos pelo constante desrespeito à natureza, um simples gesto de carinho, de um homem que resolveu desembaraçar seus cabelos emaranhados e enlameados, a faz sentir-se agradecida e desistir de sua vingança...

Quanta similaridade com o que vejo todos os dias por aí!
Como são as mulheres? Sofrem barbaridades, e um mínimo sinal de carinho, às vezes forjado, as faz esquecer de tudo e perdoar. Para, em seguida, sofrer novamente.
A lenda de Sedna é linda. Sedna é divina. Mulher é isso mesmo: amor.

Mas, quero estragar um pouco o clima, e perguntar: até que ponto devemos perdoar tudo? Até que ponto é saudável sermos tão amorosas e crédulas e nos deixarmos envolver por pequenos gestos de carinho, esquecendo de grandes gestos de desrespeito?
O quanto é saudável, até mesmo para os homens, esse perdão fácil, que os desobriga de crescer?

sábado, 31 de julho de 2010

Comentando... 2ª Parte

Esta semana estivemos às voltas com três posts:

- Tentação, de Clarice Lispector;
- Amor casual, um conto de minha autoria;
- Sedna, a mulher que se apaixonou por um cachorro, uma lenda esquimó.

Pulo de “Tentação” para “Amor Casual” e continuo a pensar em como aprendermos a usar esse amor, que nos é inato, de forma positiva.

Vejo a menina ruiva, daquele post, numa hipótese mais feliz, crescendo e percebendo que é cisne. Encontrando sua própria turma, orgulhosa de si mesma, assumindo idéias próprias. E se permitindo a aventura de agir fora de padrões pré-estabelecidos.
A menina ruiva esqueceu o basset que virou a esquina, entendeu que sua alma, às vezes, pede coisas que não estão em nenhum manual de boas maneiras, e não teme experimentar. Se aventura a assediar, a conquistar, talvez até a predar... Afinal, se pergunta: se homens são capazes de fazer isso com tanta naturalidade, por que não tentar? Vai que é bom... ;)

Lá vai a personagem de Amor Casual, cheia de vontade de viver algo exclusivamente sexual, lúdico, descomprometido. E descobre, ao final, que não é e nunca vai ser um basset ruivo, que dobra a esquina sem olhar pra trás. Que sua alma pede a aventura, e pode até tê-la, mas vai ser sempre uma alma de mulher, uma alma amorosa.
Mas... que bacana já saber administrar isso com menos medo, mais liberdade...
Porque, embora sejamos amor, é preciso que tenhamos consciência de que amor, em essência, É liberdade. E, de onde tiramos que esse amor tem que ser administrado por regras que não fomos nós que criamos?

Quem tem que ditar quem amamos, como amamos, porque amamos, é nossa alma, nosso coração.

Quando vivemos nosso amor de forma mais livre e desinteressada, sem nos importarmos com aqueles que querem regrar algo divino, sem usá-lo como instrumento de barganha para conseguir o que queremos, e sem exigir reciprocidade obrigatória, começamos a entender o que, de fato, é o amor.

continua...

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Comentando... 1ª Parte

Esta semana estivemos às voltas com três posts:

- Tentação, de Clarice Lispector;
- Amor casual, um conto de minha autoria;
- Sedna, a mulher que se apaixonou por um cachorro, uma lenda esquimó.

Estive relendo os três, e me emocionei ao perceber quanto se pode aprender com eles sobre a natureza feminina e, talvez, sobre a masculina também...

A garota ruiva de Clarice, típica patinha feia, imersa numa fragilidade momentânea, por não saber ainda o belo cisne em que se transformará, me fez pensar em todas nós, quando ainda imaturas. Garotas ruivas, gordas, magras demais, de pernas muito finas ou muito compridas, baixinhas, tímidas, inseguras... garotas fora do padrão estabelecido como ideal numa sociedade que dita até mesmo como deve ser a beleza. Garotas que ainda não se aceitam, mas que querem muito ser aceitas, que procuram o amor, que temem a rejeição.

Estamos, nessa fase em que ainda não nos descobrimos mulheres, à mercê de quem nos abane o rabo e nos ofereça uma gostosa lambida... E, como a menina vermelha, muitas vezes encontramos solução num basset ruivo. Desprevenido, acostumado, cachorro.
Muitas mulheres se sentem garotas ruivas soluçando ao sol das duas por toda uma vida. E, às vezes, também por toda uma vida, seguem se apaixonando por cachorros. Cachorros que, como o basset ruivo, se vão sem olhar uma só vez pra trás, mais fortes do que elas. E elas ali, apalermadas, vendo-os dobrar a esquina, sem saber exatamente o que fazer com o amor que lhes sobra nas mãos...

Canso de me deparar com lindas mulheres feitas, verdadeiros cisnes brancos, que se sentem patinhos feios ou meninas vermelhas, e sempre fico me perguntando o porquê disso.
Mulheres que aceitam homens que se esforçam para detonar sua auto-estima. Mulheres bonitas que toleram homens que exaltam qualidades de outras mulheres, mas que ficam cegos às suas. Mulheres que bancam as contas da casa, são frequentemente humilhadas e, ainda assim, se sentem dependentes de um homem...

Posso especular que, talvez, tenham nascido numa família que não era a sua, de fato. Talvez tenham tido relações parentais complicadas, pais ausentes, falta de orientação e carinho... e, talvez, tenham se defrontado vezes demais com fortes bassets ruivos.
O que fazer para que essas mulheres entrem em contato consigo mesmas, percebam o próprio valor, tomem posse da força que têm, e, em vez de serem vítimas desse excesso de amor que transborda de todas nós, o usem a seu favor?


continua...