terça-feira, 15 de novembro de 2011
Divina Quimera
Sou Quimera, a Ninfa.
Nasci na Antiga Grécia, dos Deuses e Mitos.
Recebi o nome Lasgie e o dom da metamorfose.
Sou Quimera, a Mulher.
Fui enfeitiçada e aprisionada por Malléficus, o Sátiro Narigudo.
Sou Quimera, a Feiticeira.
Hécate, a Deusa Tríplice da Lua, lembrou-me quem eu era e o dom que eu possuía.
Sou Quimera, das Mil Faces.
Sob a forma de uma Cabra, escapei e subi montanhas.
Como uma Leoa lutei por mim e venci os predadores.
Como uma Fêmea-Dragão voei livre no vento e cheguei aos céus.
Sou Quimera, a Deusa.
Como uma Deusa Mãe retornei do Olimpo, viajei no tempo
e atravessei o Portal do Sol Nascente, neste leste.
Sou Quimera, a Mensageira.
Fui enviada pelas Deusas Antigas à montanha dos Desejos Realizados
Para dizer que…
Sou Quimera, sou Você.
A Ninfa, a Mulher, a Feiticeira, a das Mil Faces, a Deusa.
Sou sua Força oculta.
Seu Poder de transformar a realidade.
Somos a Cabra que ultrapassa barreiras.
Somos a Leoa que luta e vence predadores.
Somos a Dracena que conquista a liberdade de ser e conhecer.
Somos a União de Poderes e Forças.
Olhe-me e reconheça-te.
Peça que te darei.
Sou Quimera, a Divina.
BETH MIGUEZ
terça-feira, 8 de novembro de 2011
Um Varal Diferente
De vez em quando, faz-se necessário pendurar algumas coisas ao sol...
Como seria bom poder fazer isso com nossas coisas interiores...
Arejar tristezas... deixar que o vento as leve...
Pôr ao sol nossos afetos para lhes dar mais energia...
Deixar as mãos de nossa alma balançando ao sabor da brisa,
para colher o pólen semeador do belo...
ANA NUNES
domingo, 30 de outubro de 2011
SEDNA, A Mulher-Esqueleto
Ela havia feito alguma coisa que seu pai não aprovara, embora ninguém mais se lembrasse do que havia sido. Seu pai, no entanto, a havia arrastado até os penhascos, atirando-a ao mar. Lá, os peixes devoraram sua carne e arrancaram seus olhos. Enquanto jazia no fundo do mar, seu esqueleto rolou muitas vezes com as correntes.Um dia um pescador veio pescar. Bem, na verdade, em outros tempo muitos costumavam vir a essa baía pescar. Esse pescador, porém, estava afastado da sua colônia e não sabia que os pescadores da região não trabalhavam ali sob a alegação de que a enseada era mal-assombrada.
O anzol do pescador foi descendo pela água abaixo e se prendeu – logo em quê! – nos ossos das costelas da Mulher-Esqueleto. O pescador pensou: ‘Oba, agora peguei um grande de verdade! Agora peguei um mesmo!’ Na sua imaginação, ele já via quantas pessoas esse peixe enorme iria alimentar, quanto tempo sua carne duraria, quanto tempo ele se veria livre da obrigação de pescar. E enquanto ele lutava com esse enorme peso na ponta do anzol, o mar se encapelou com uma espuma agitada, e o caiaque empinava e sacudia porque aquela que estava lá embaixo lutava para se soltar. E quanto mais ela lutava, tanto mais ela se enredava na linha. Não importa o que fizesse, ela estava sendo inexoravelmente arrastada para a superfície, puxada pelos ossos das próprias costelas.
O pescador havia se voltado para recolher a rede e, por isso, não viu a cabeça calva surgir acima das ondas; não viu os pequenos corais que brilhavam nas órbitas do crânio; não viu os crustáceos nos velhos dentes de marfim. Quando ele se voltou com a rede nas mãos, o esqueleto inteiro, no estado em que estava, já havia chegado à superfície e caía suspenso da extremidade do caiaque pelos dentes incisivos.
– Agh! – gritou o homem, e seu coração afundou até os joelhos, seus olhos se esconderam apavorados no fundo da cabeça e suas orelhas arderam num vermelho forte. – Agh! – berrou ele, soltando-a da proa com o remo e começando a remar loucamente na direção da terra. Sem perceber que ela estava emaranhada na sua linha, ele ficou ainda mais assustado, pois ela parecia estar em pé, a persegui-lo o tempo todo até a praia. Não importava de que jeito ele desviasse o caiaque, ela continuava ali atrás. Sua respiração formava nuvens de vapor sobre a água, e seus braços se agitavam como se quisessem agarrá-lo para levá-lo para as profundezas.
– Aaagggggghhhh! – uivava ele, quando o caiaque encalhou na praia. De um salto ele estava fora da embarcação e saía correndo agarrado à vara de pescar. E o cadáver branco da Mulher-Esqueleto, ainda preso à linha de pescar, vinha aos solavancos bem atrás dele. Ele correu pelas pedras, e ela o acompanhou. Ele atravessou a tundra gelada, e ela não se distanciou. Ele passou por cima da carne que havia deixado a secar, rachando-a em pedaços com as passadas dos seus mukluks.
O tempo todo ela continuou atrás dele, na verdade até pegou um pedaço do peixe congelado enquanto era arrastada. E logo começou a comer, porque há muito, muito tempo não se saciava. Finalmente, o homem chegou ao seu iglu, enfiou-se direto no túnel e, de quatro, engatinhou de qualquer jeito para dentro. Ofegante e soluçante, ele ficou ali deitado no escuro, com o coração parecendo um tambor, um tambor enorme. Afinal, estava seguro, ah, tão seguro, é, seguro, graças aos deuses, Raven, é, graças a Raven, é, e também à todo-generosa Sedna, em segurança, afinal.Imaginem quando ele acendeu sua lamparina de óleo de baleia, ali estava ela – aquilo! – jogada num monte no chão de neve, com um calcanhar sobre um ombro, um joelho preso nas costelas, um pé por cima do cotovelo. Mais tarde ele não saberia dizer o que realmente aconteceu. Talvez a luz tivesse suavizado suas feições; talvez fosse o fato de ele ser um homem solitário. Mas sua respiração ganhou um quê de delicadeza, bem devagar ele estendeu as mãos encardidas e, falando baixinho como a mãe fala com o filho, começou a soltá-la da linha de pescar.
– Oh, na, na, na – Ele primeiro soltou os dedos dos pés, depois os tornozelos. – Oh, na, na, na – Trabalhou sem parar noite adentro, até cobri-la de peles para aquecê-la, já que os ossos da Mulher-Esqueleto eram iguaizinhos aos de um ser humano.
Ele procurou sua pederneira na bainha de couro e usou um pouco do próprio cabelo para acender mais um foguinho. Ficou olhando para ela de vez em quando, enquanto passava óleo na preciosa madeira da sua vara de pescar e enrolava novamente sua linha de seda. E ela, no meio das peles, não pronunciava palavra – não tinha coragem – para que o caçador não a levasse lá para fora e a jogasse lá embaixo nas pedras, quebrando totalmente seus ossos.
O homem começou a sentir sono, enfiou-se nas peles de dormir e logo estava sonhando. Às vezes, quando os seres humanos dormem, acontece de uma lágrima escapar do olho de quem sonha. Nunca sabemos que tipo de sonho provoca isso, mas sabemos que ou é um sonho de tristeza ou de anseio. E foi isso o que aconteceu com o homem.
A Mulher-Esqueleto viu o brilho da lágrima à luz do fogo e, de repente, ela sentiu uma sede daquelas. Ela se aproximou do homem que dormia, rangendo e retinindo, e pôs a boca junto à lágrima. Aquela única lágrima foi como um rio, que ela bebeu, bebeu e bebeu até saciar sua sede de tantos anos.
Enquanto estava deitada ao seu lado, ela estendeu a mão para dentro do homem que dormia e retirou seu coração, aquele tambor forte. Sentou-se e começou a batucar dos dois lados do coração: Bom, Bomm! ... Bom, Bomm!
Enquanto marcava o ritmo, ela começou a cantar em voz alta.
– Carne, carne, carne! Carne, carne, carne! – E quanto mais cantava, mais seu corpo se revestia de carne. Ela cantou para ter cabelo, olhos saudáveis e mãos boas e gordas. Ela cantou para ter a divisão entre as pernas e seios compridos o suficiente para se enrolarem e dar calor, e todas as coisas de que as mulheres precisam.
Quando estava pronta, ela também cantou para despir o homem que dormia e se enfiou na cama com ele, a pele de um tocando a do outro. Ela devolveu o grande tambor, o coração, ao corpo dele, e foi assim que acordaram, abraçados um ao outro, enredados da noite juntos, agora de outro jeito, de um jeito bom e duradouro.
As pessoas que não conseguem se lembrar de como aconteceu sua primeira desgraça dizem que ela e o pescador foram embora e sempre foram bem alimentados pelas criaturas que ela conheceu na sua vida debaixo d'água. As pessoas garantem que é verdade e que é só isso o que sabem.”
Por Suely Laitano Nassif
Postado em 20/08/2010 às 15h11
segunda-feira, 19 de setembro de 2011
Fazendo um passeio em uma livraria...
Hoje estive num setor de livros raros da Saraiva. Fui atendida pela responsável que se chama Ana Lúcia Brudeika. Deve ser quase da minha idade e é uma leitora voraz, graças ao fato de ter freqüentado a Biblioteca Monteiro Lobato na sua infância, com sua irmã. As leitoras se encontram das formas mais inesperadas. Lá, entre muitos tesouros, descobri uma série de livros chamada "Coleção Rosa", do início dos anos 60 e publicada pelos anos sessenta todo, com traduções de romances melados alemães (sabiam que alemão já escreveu romances melados? Eu nunca imaginaria e olha que convivi com eles por volta de três meses diariamente).
A coleção é mesmo cor de rosa e ela se manteve com 68 títulos por pelo menos uma década! Tem um best-seller nela chamada "A mulher do rádio" de Isa Silveira Leal. Leal foi leitura da minha infância. Ela escreveu uma série de livros para meninas. Meu pai me deu “Glorinha e o mar”, aos doze anos, e eu adorei. Aí me comprou “Glorinha bandeirante” que achei o máximo, porque a protagonista viaja para Salvador e tem um namoro com um guia de turismo de Salvador. Entusiasmado com minhas leituras, meu pai comprou “Glorinha e a quermesse”. Super furo. A tal Glorinha, nesse livro está com uns dezoito anos e resolve namorar a sério, pensando em se casar. O livro era tão anos 50, um horror! Toda a magia e aventura dos livros anteriores não deixam rastro nesse. Larguei Isa Silveira Leal para todo o sempre depois de tamanha decepção.
Eu que vivo farejando novidade, ando voltada para as novidades do passado. Nesse acervo antigo descobri ainda, para minha surpresa e dos sobrinhos de meu avô materno, que ele publicou 17 livros didáticos, sendo 16 de ensino da língua francesa. Os livros do Professor Cleófano Lopes de Oliveira. Mantiveram-se no mercado editorial da Saraiva por volta de vinte anos, junto aos de Português técnico, de Silveira Bueno e outros de Napoleão Mendes de Almeida. Nessa eletrizante descoberta, desse avô mágico que tive, publiquei “O avô mágico”, em 1993, e ele esteve entre as crianças até 2005, graças à divulgação da Editora Scipione, do vídeo sobre o livro realizado por uma professora de pré-escola da prefeitura de São Paulo e ao livro didático de Zélia Almeida, chamado “Alfa, beta etc. Língua Portuguesa” - 1º. Ciclo, volume 2, publicado pela Dimensão, editora mineira.
Meu avô mágico que nasceu em Batatais, estudou com José Olympio, foi amigo de Sud Minucci e jogou xadrez por anos com Silveira Bueno, foi um feminista porque formou professoras da Escola Normal Caetano de Campos por décadas, nos áureos tempos (anos 30 a 60 do século passado). Vovô deu aulas no Liceu Pasteur anos a fio. Quando nasci ele já tinha se aposentado. Falava muito de literatura, cantava hinos franceses, tinha um humor afiadíssimo e exigente quanto ao português falados pelos netos. Ele faleceu em 1987, momento doloroso em que descobri que eu me envolvera com livros e crianças inspirada nele. Em 1993 restabelecemos contato por meio do livro infantil, que me trouxe muitas alegrias e convivência com crianças. E agora ele retorna com essa novidade do universo da cultura francesa. Pus-me a pensar que se algum filho dele, genro ou sobrinhos não tivessem se tornado leitores, ele teria enterrado no jardim.
Na família, o que restou dela, ficou o mistério. Adolescente, vovô foi viver em Liége, na Bélgica, para estudar Medicina. Isso no início do século XX. De Batatais para Liége. Ele viveu por volta de dois anos na Bélgica e voltou porque o pai falecera e ele era o filho mais velho de oito. Da Bélgica ele manteve gostos gastronômicos e algumas crônicas de suas paqueras e aprontações de rapaz. De volta a Batatais casou-se e veio morar em São Paulo. Dali um tempo surgiu o Colégio Caetano de Campos e lá foi ele ministrar aulas de português, redação e francês. Da Medicina só sobrou a hipocondria, que ele manteve no estilo de Moliére em “O doente imaginário”. Dezesseis livros de francês (textos franceses, francês glorioso, o melhor do francês, gramática francesa, uma doideira). E toda essa produção publicada entre 1941 e 1960!!!!! Tem um livro de 2º ginasial de textos franceses em que há comentários de professores sobre a excelência do livro de profissionais de Batatais, Casa Branca, Taubaté e até um comentário do O Estado de São Paulo.
Sabem quantas viagens ele fez à França durante sua vida? Ne-nhu-ma.
Para minha mãe, a convivência com a língua e cultura francesa parece que fazia parte dos gens. Lembro que peguei cinco traduções de francês de textos juvenis para fazer com ela (eu não sei praticamente nada de francês). Ela traduzia e eu punha no computador. Nossas discussões eram porque ela se aferrava à etimologia das palavras e eu à estética literária. O chato é que a editora, no final, quebrou o contrato com a Nathan francesa e as traduções ficaram na gaveta. O Lino de Albergaria apreciou muito o trabalho final. Ele era o editor da Dimensão. Não me esqueço do quanto fiquei boquiaberta com o conhecimento dela. Assim como vovô, meus pais sempre foram uma caixinha de surpresas, quando o tema era Ciências Humanas.
No final dessa tarde, na Saraiva, a Sra. Brudeika me levou a um passeio entre as estantes dos livros antigos da editora. Ai entrei no meio das estantes cheias de livros antigos, e os livros do vovô acenavam para mim como se tivessem mãos. “Edições com lombadas e cores de capa diferentes” de várias edições de “Flor do Lácio”, seu livro de redação para ginásio e colégio. Como eu disse em certo momento no texto de o “Avô mágico” a respeito de Napoleão Bonaparte: “um imperador da França ou de Batatais? Bem, tanto faz”, descobri em uma tarde de segunda-feira que meu avô impera no passado da Editora Saraiva. É mesmo curioso como meu avô se tornou personagem literário e agora retorna com toda força me contando de seu passado de escritor, que eu desconheceria se não fosse uma profissional muito curiosa. Gozado mesmo é como os homens de antigamente separavam completamente a vida familiar da profissional. E se eu fiquei boquiaberta, gostei mesmo foi de ver os sobrinhos dele, Caio e Nísia com mesma expressão no rosto que eu fiquei na frente da Sra. Brudeika.
Ana Lúcia Brandão
quarta-feira, 14 de setembro de 2011
O Mundo
Ainda menina mimada, pernas finas e um leve e ingênuo corpo de pura credulidade, vi o Mundo sentado num canto, como que me esperando, receptivo, e cedi à tentação: sentei no colo do Mundo. Embora agitada, e mal podendo me conter ali, tanta coisa a se viver, o colo que o Mundo me oferecia era tão confortável e caloroso, e sua aceitação de mim tão grande, que rapidamente me habituei a recorrer a seu aconchego sempre que cansada da agitação da Vida.
Vez ou outra me esquecia de tudo o que não fosse Mundo. Recostava a cabeça em seu peito, sentia suas mãos firmes me segurando e chegava mesmo a cochilar, em total abandono.
Com o passar dos anos, a certeza de que o Mundo estaria ali, me esperando, sempre que o procurasse, se consolidou e passei a ter nele meu porto seguro.
Certa vez, mais encorpada, pés já tocando o chão, senti que talvez pesasse e causasse algum cansaço no mundo. Percebi uma tentativa dele em me acomodar melhor, como fora tão natural até então. Disfarçadamente, voltei-lhe a minha atenção.
E pela primeira vez, aflita, percebi que o mundo respirava. Simulei cansaço e encostei a cabeça, como tantas vezes já fizera, em seu peito. E pude ouvir o bater acelerado do seu coração. Lembro-me de ter me sentido arrepiar. Por instantes, me falhou o ar. E fiquei quieta, sentindo o pulsar de um mundo que até então parecia estar ali apenas pra me acomodar. Olhos fechados, deixei-me arrebatar, horrorizada, pela incrível constatação de que o Mundo vivia, e talvez sofresse com minha lépida alienação. Senti raiva da Vida, sempre me ocupando e me envolvendo em suas tramas. Com certeza era dela a culpa de tamanha desatenção.
Então não tive mais sossego.
E se a qualquer momento o Mundo não mais quisesse me acolher? Sofri antecipando uma falta até doída da firmeza de suas mãos. Temi não mais poder sentir aquele respirar e o pulsar cadenciado do seu coração.
E resolvi, intimamente, que seduziria o Mundo.
Mas... tão pouco caso fizera dele, que o pobre se ressentira e agora meus esforços pra que se mostrasse eram vãos. O Mundo se fechara numa timidez crônica e percebi que teria que partir de mim o esforço pra uma aproximação. Não mais me joguei em seu colo com estabano de menina. Sentava-me de lado e, sempre que possível, buscava seu olhar. Em vez de apenas esperar que suas mãos me amparassem, passei a tocá-las carinhosamente. Vez ou outra, as mãos do Mundo respondiam ao meu toque com um leve tremor. Certo dia encostei meu rosto ao dele, senti seu calor e vi, claramente, o mundo corar. Noutra ocasião corri os dedos por seu peito e ele suspirou.
O Mundo, em seus movimentos silenciosos, em sua relutância em se mostrar, se tornou um desafio... Que imensa vontade me dava de quebrar nossas barreiras, atingir o coração do Mundo e com ele namorar! Tive que ser paciente e ardilosa. Me mostrar para o encorajar. Aceitar sem julgar. E nunca, nunca, a seus pequenos arroubos de auto-exibição, me assustar.
Aos poucos, fui ganhando sua confiança.
Hoje, já consigo tocar o Mundo com mais intimidade. E embora ele ainda se retraia ao toque dos meus lábios, desconfio seriamente que o Mundo me deseje.
Amo tanto o Mundo e seus mistérios que chego a sofrer de tanto amar...
Nalgum dia ainda me embrenho por um desses labirintos da vida e encurralo o mundo num beco sem saída. Quero despi-lo e fazer com se mostre, sem pudor ou qualquer mágoa dos meus tempos de menina. Se bobear, ali mesmo, a céu aberto, me declaro apaixonada.
Quero ver então se me vendo desarmada e atrevida, e me reconhecendo mulher feita, o mundo terá, afinal, coragem de me penetrar.
Ana Lúcia Sorrentino
Escrito em 7 de maio de 2011
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